Por Franklin Távora (1876)
— A minha opinião é que apanhemos os cavalos e gados que ainda existem por estas beiradas. Eles devem render na feira dinheiro fresco para irmos resistindo à seca. Feito isto, levantemos o acampamento por algum tempo — tornou Miguel.
— Que é que resta por aqui ? — perguntou Corisco. — Na fazenda de Liberato poucas reses se contam. Antes de morrer, o ladrão do negro já estava limpo; só tinha em casa os cachorros, os gatos, a mulher e a filha.
— Boa idéia, boa idéia — gritou o Joaquim, cujos olhos nadavam em ferocidade. — Terão vocês coragem para darem conta da empresa ?
— Diga lá, Joaquim. Você não está com patativas choronas, você está com carcarás que têm boa vista, boas asas e melhores unhas — acudiu Miguel Mulatinho, librando se nos pés para imitar o pássaro que quer voar.
— Vamos lá ver o que propõe você — acrescentou Manuel Corisco.
— Proponho o roubo das melhores raparigas da povoação. Isto, sim, há de dar a todos a medida da nossa audácia, e por todos será considerado uma prova de que estamos fortes como nunca estivemos.
— Sim senhor, muito bem lembrado — disse o Mulatinho — , melhor não podia ser, mas a coisa é séria, Joaquim.
— Ora ! Tens medo ?
— Medo ! O medo comi eu com as papas que minha mãe me deu quando era pequenino —retrucou o malfeitor como por demais.
— Dito e feito, Joaquim. Quando será isso ? Hoje ? Amanhã ? — perguntou José Trovão, negro hediondo, cuja cara apresentava profundas cicatrizes e cujos olhos, vermelhos como tomates, padeciam de estrabismo divergente.
— Hoje não. Amanhã, ou depois, conforme entender melhor Zé Gomes — respondeu Joaquim.
E logo acrescentou:
— Mas onde se meteu Zé Gomes que não o vejo aqui ?
O lugar onde se achavam reunidos os bandidos era um dos pontos mais centrais da mata.
Tinham eles assentado o seu arraial ao pé de um olho d'água que não secava, ainda no rigor do verão. Este arraial compunha se de meia dúzia de ranchos abertos por todos os lados e unicamente cobertos de palhas de pindoba. Dos caibros pendiam surrões, véstias e chapéus de couro. Algumas redes estavam armadas dentro das palhoças. A noite alumiavam se ordinariamente com fogueiras; tinham porém sempre em quantidade fachos de que se serviam nas suas idas e voltas por dentro da mata, quando fazia escuro. Tudo anunciava que o ponto era sempre provisório, e podia ser deixado de um momento para outro sem prejuízo nem saudades.
O Cabeleira estava longe deles naquele instante.
Apenas viu passada a borrasca, reapareceu lhe a imagem de Luísa em quem ele via dois tipos cada qual mais sedutor — em um a menina de oito anos com o rosto banhado da expressão de meninice, que é agradável até aos olhos dos que têm o coração mais endurecido do mundo; no outro a moça ingênua, corajosa, banhada em pranto, de rojo a seus pés, pedindo lhe misericórdia, insultando o, amaldiçoando o, bela, tanto mais bela quanto mais aumentavam sua dor e sua indignação, ambas tão profundas como era o afeto que ela votava ao bandido.
Este não tinha tido até aquele momento predileção amorosa para alguma outra mulher.
Sua vida nômada, arriscada, cheia de sobressaltos, ensopada de sangue só lhe tinha permitido querer bem à imagem da menina que ainda na véspera se debuxava em seu espírito com um vago e pálido reflexo do passado. Inesperadamente, porém, este reflexo se ilumina com todos os brilhos do mais primoroso íris. A reminiscência desmaiada, quase desaparecida, tomou corpo, forma, cor, contornos suaves, olhos matadores, cabelos escuros, voz harmoniosa, enérgico sentimento, e com soluços o comove, e com exprobrações o faz conhecer e sentir a dor, nunca talvez experimentada, de um remorso cruel. Seu coração, que se havia convertido em foco de paixões sanguinárias, era agora ninho de doce e indefinível sentimento.
O bandido estava experimentando, não a lascívia bruta que proporciona rápidos prazeres, dele conhecidos como a aguardente que bebia nos dias quentes e nas noites frias, mas uma fatalidade benévola, branda e terna que o impelia para a moça, primeiro pelo espírito, e só depois pela beleza da forma que o atraía; e essa fatalidade era tão poderosa que ele não achava forças em si para lhe resistir apesar do seu querer.
Chegando à beira do rio para onde se dirigira correndo em busca da visão que aí deixara, achou em seu lugar a solidão infinita, a solidão só.
Era em maio. Frouxo estava o luar. Elevava se das margens, com os ruídos do deserto, fresca e grata emanação que teve para o seu peito abrasado o efeito do bálsamo fragrante.
Pareceu lhe que debaixo da folhagem do juazeiro onde, segundo o seu pedido, esperava encontrar a moça, um corpo indeciso e vago se agitava brandamente.
— Luisinha ? Luisinha? — chamou ele.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.