Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Pelo andar do tempo, continuou o palácio imperial a receber outras modificações.
No reinado do primeiro imperador, levantou-se o segundo andar da face principal com três janelas guarnecidas por uma varanda de ferro.
No atual reinado do Sr. D. Pedro II, e por ordem de Sua Majestade, foram reformados os dois corpos laterais da fachada principal, sendo cada um deles coroado com um ático, parecendo por isso haver dois terraços em lugar de telhados.
No interior do palácio, limitar-me-ei apenas a lembrar as alterações que o pensamento que dominou em épocas diversas imprimiu plasticamente na sala das audiências do governador e dos vice-reis, e do trono do rei e do imperador.
O conde de Bobadela mandou representar no teto daquela sala o gênio da América, e José de Oliveira, pintor fluminense, mostrou o gênio aspirando lume ao entrar no templo da humanidade, na grande aliança que caminhava com o sol, do oriente para o ocidente.
Por ordem do rei, simbolizou Manuel da Costa o reino unido, sustentando o escudo glorioso de Portugal.
O primeiro imperador encarregou a Francisco Pedro de substituir aquele símbolo, que ali se tornara anacrônico, pelas armas do novo império diamantino.
Logo depois da declaração da sua maioridade, o Sr. D. Pedro II mandou pelo Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre executar no paço as obras que ainda há pouco referi, e então aquela sala cresceu de pavimento e altura, e no seu teto fulgurou o Anjo Custódio, protetor do império, rodeado das províncias e do Brasil genuflexo, que recebe da sua mão celeste o influxo da proteção divina.
A descrição do palácio imperial deve parar aqui. Convenho em que, ao ler-se a epígrafe deste e dos precedentes capítulos, esperariam muitos que eu tivesse de falar de salas suntuosas, de brilhantes e admiráveis trabalhos de arte, e de todas essas riquezas que deslumbram os olhos daqueles que visitam os palácios reais e imperiais do velho mundo. Mas, que hei de fazer? O nosso palácio imperial é uma casa pobre que faz honra à modéstia do imperador, e que, entretanto, assinala também ou a pobreza, ou a incúria inexplicável do Estado.
Mas por que dei por finda a descrição, não se segue que eu deva recolher-me tão cedo deste passeio, que apenas acabo de começar. Aproveitaremos o tempo que nos sobra, conversando um pouco sobre coisas que dizem respeito ao mesmo palácio.
Conversemos.
À primeira vista, surpreende a qualquer o fato de haver o rei deixado passar treze anos sem cuidar de fazer construir para si um verdadeiro palácio em lugar dessa casa dos governadores em que se hospedara a família real portuguesa; e ainda mais admira que a nação se tenha descuidado de oferecer ao seu imperador um palácio digno dela e dele, achando-se constituída há perto de meio século.
Ora, ao que parece, o rei não tinha muita vontade de voltar para Portugal e, portanto, não se explica, por uma idéia de residência passageira o fato de ter-se ele contentado com esse palácio provisório.
Quanto aos imperadores, a explicação seria ainda mais difícil para o Estado, que deve dar um palácio ao seu chefe.
Mas o motivo de ambos esses descuidos é, no entanto, porventura, bem simples.
O príncipe regente, depois rei do Reino-Unido, por muito pouco tempo residiu ordinariamente no palácio de que tenho tratado.
No mesmo ano da chegada da família real portuguesa ao Brasil, Elias Antônio Lopes, notável negociante da praça do Rio de Janeiro, ofereceu ao príncipe regente uma casa e chácara que possuía em S. Cristóvão. A oferta foi aceita, as armas reais foram colocadas sobre a porta principal da casa e a família real passou a residir quase sempre nessa chácara, que ficou sendo chamada, como ainda hoje se chama, Quinta da Boavista.
Como o Sr. D. João, também os nossos dois imperadores preferiram, com razão, S. Cristóvão ao largo do Paço, e a necessidade de um palácio na cidade pareceu assim menos urgente.
Eis aí por que a casa, que a princípio se chamou dos governadores, tem podido atravessar mais de um século, merecido três promoções, pois que passou a ser casa dos vice-reis, depois palácio real e, enfim, palácio imperial, e se mantêm ainda com o mesmo título, apesar da sua insuficiência, da sua mesquinhez, do seu estado de ruína e, em uma palavra, apesar do cupim que a conquistou toda.
Entretanto, deve-se dizer, tal qual é, o palácio da cidade encerra já importantes recordações históricas.
Em relação ao passado, a lousa pesada do tempo esconde na
sepultura do esquecimento, sem dúvida, muitas lembranças interessantes. Metade,
porém, da nossa história contemporânea lê-se nas janelas e nas salas desse
palácio.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.