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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Eu não perco tempo lendo jornaes, menina.

— Pois faz mal, ás vezes acha-se a explicação de muitos factos.

— Que queres dizer ?...

— Nada, minha tia.

— Mas eu ardo de impaciencia...

— Porque ?...

— Porque não admitto que falhasse o meu principio.

— Qual?...

— O do poder do dinheiro na epoca actual.

— Pois socegue, não falhou.

— Então é certo que os tres calculistas descobrirão outra velha mais rica do que eu !...

— Não, senhora.

— N'esse caso falla...

— Ainda não... mas... está dando meio-dia ; não ouve ?...

— O que ? os sinos a darem meio-dia ?...

— Não : o rodar das carruagens que párão.

— E então ?

— São elles.

— Elles quem ?

— Os tres calculistas, sem duvida.

— Os tres !... e tu pensas...

— Que elles vem pedir-me em casamento.

— Tal e qual como aconteceu comigo ?...

— Com uma unica differença... disse Clemência rindo.

— E qual é ella ? perguntou a velha.

— E que eu não mandei preparar um banquete para offerecel-o aos meus pretendentes.

Com effeito, o Sr. Antônio, o Dr. Ambrosio, e Claudiano tinhão ao mesmo tempo feito parar á porta da casa do pai de Clemência as carruagens em que vinhão, encontrando-se na mesma escada.

— É celebre ! disse Antônio.

— É incrivel ! disse Ambrosio.

— É inaudito ! disse Claudiano.

apresentárão-se na sala já um pouco desapontados, e ainda mais o ficarão esbarrando com Violante, que os cumprimentou com ar sinistro, e emfim perdêrão-se de todo, vendo um sorriso malicioso brincando nos labios de Clemência.

— Meus Senhores, disse a moça, meu pai não se acha em casa ; mas eu posso ouvir e responder ás proposições que me quizerem fazer.

— Hão de ser curiosas ! observou a velha.

Os tres calculistas, fallando cada um por sua vez, disserão, como de costume, absolutamente a mesma cousa. Vinhão todos pedir Clemência em casamento, e cada qual animado por uma doce esperança que ella deixara accender-se em seu coração.

— É verdade, meus senhores : na ultima partido do Club Fuminense autorisei a cada um dos senhores em particular para vir hoje a esta hora que eu marquei, pedir-me em casamento a meu pai; arrependi-me porém de tel-o feito, e isso por uma razão muito simples. Os senhores fazião-me a corte desde algum tempo, e bem que eu nunca houvesse dado a qualquer dos tres direito algum sobre meu coração, vi de subito e com sorpreza que todos me voltarão o resto, e que se declaravão amantes apaixonados de minha tia, e pretendentes á sua mão ; outra vez, de subito, os senhores voltarão a curvar-se a meus pés, e fallárão-me todos em casamento ; semelhantes mudanças tão completas e tão rápidas devem ter uma explicação, e sem que os senhores m'a dêem, não receberão da minha bocca resposta alguma.

Os tres calculistas ficarão olhando-se mutuamente e corridos do papel que estavão representando.

— Tenhão a bondade de fallar, tornou Clemência.

Antônio, Ambrosio e Claudiamo explicarão o seu procedimento pelo poder dos encantos e da formosura de Clemência.

— Dizem a verdade?... perguntou ella.

Os tres calculistas jurarão com enthusiasmo que a paixão que sentião era profunda e invencivel.

— E insistem nas suas pretenções? Elles insistirão mais do que nunca.

Clemência voltou-se então para Violante e disse:

— Minha tia, vou pedir-lhe perdão de um abuso que commetti, e provar-lhe que convém muito ler os jornaes.

— Que queres dizer ?...

— Quero dizer que ha dous dias appareceu nos diversos jornaes diarios da capital a noticia que vou repetir palavra por palavra : eil-a :

« Ainda ha almas bemfazejas e parentes verdadeiramente dedicados. Uma nobre senhora de idade de 61 annos, que possuia uma fortuna de trezentos contos de réis, e tinha uma sobrinha moça, bella, porém pobre, vendo-se ultimamente instada por tres pretendentes á sua mão, e resolvendo-se a tomar um d’elles para marido, determinou antes de casar-se fazer, e de facto fez, doação de duzentos contos de reis á sua virtuosa e linda sobrinha, que ficou por esse modo ainda mais rica do que a tia. Esta boa e nobre parente é digna de todos os elogios. » — Que significa então isto ?...

— Ah ! minha tia, quer dizer que eu forjei uma noticia falsa; vossa mercê não me fez doação de um só vintém ; mas hoje isso me importa pouco, porque estes senhores amão-me apaixonada e desinteressadamente, e portanto...

— Como está corrompida a imprensa do paiz!... exclamou Ambrosio, eu vou chamar á responsabilidade todos esses indignos jornaes!...

E sahio desesperado da sala.

— Perdão, minha senhora, murmurou Antônio gaguejando; mas quem improvisa noticias destas, nunca poderá fazer a felicidade de um marido!

(continua...)

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