Por José de Alencar (1872)
Guimarães era um moço de vinte e sete anos, filho de um antigo procurador muito ginja, que devia deixar-lhe uma legítima de uns seiscentos contos de réis. O pai à custa de empenhos conseguira formá-lo em Direito; mas só por luxo, para dar-lhe o título que tanto invejara. Sucedeu porém que ninguém tomou ao sério a coisa, nem mesmo o rapaz. Todos continuaram a tratá-lo pura e simplesmente pelo nome, sem o competente doutor. Era tão profundo o esquecimento da formatura do filho do procurador que seus amigos e camaradas acreditariam mais facilmente que ele fosse um príncipe incógnito do que um bacharel.
Guimarães tinha um exterior agradável: bem feito, de talhe vantajoso, vestia-se no rigor da moda, mas ao gosto do alfaiate, e portanto com todas as extravagâncias do figurino. Montava bem a cavalo; fumava com garbo o seu havana; sustentava sofrivelmente uma dessas conversas de ninharias, essenciais nos intervalos da quadrilha e em ocasiões de apresentação.
Bastos era um corretor, que aos trinta e quatro anos já havia feito uma bela fortuna.
Soares o tinha no melhor conceito, e num círculo de íntimos lhe profetizara o milhão aos quarenta anos. Ora, o milhão, segundo o comendador, é o pólipo, que se reproduz com espantosa rapidez.
O corretor era o que se chamava um bonito homem; isto é, uma estampa soberba para ganadeiro ou tambor-mor. Alto de estatura, porte robusto, mas bem talhado, tinha um rosto de feições regulares, moldurado por uma bela suíça negra. Vestia-se com a simplicidade do negociante inglês; falava com acerto em assuntos comerciais; animava-se a discutir política até com os mais notáveis estadistas; porém numa roda de senhoras faltava-lhe a fluência, a menos que não se tratasse de compras e encomendas, ponto em que mais ou menos entrava o gênio mercantil.
O Dr. Nogueira advogava. Como todos os homens de talento, tinha-se envolvido na política, esse terrível maelstrom que arrasta em nosso malfadado país todas as grandes inteligências, como todas as ambições ardentes. Sua posição não passava de uma espera na grande caçada nacional. Apresentava-se candidato por sua província, e cheio de entusiasmo acreditava que ia abrir-se a seu talento uma carreira brilhante.
Ele tinha os dotes necessários: bela inteligência, palavra fácil e elegante, que amenizava as mais áridas questões e elevava os assuntos triviais; caráter dúctil, suscetível de amoldar-se a todas as situações como de ligar-se a qualquer indivíduo; caráter que se pode bem comparar ao estanho, de que se faz a solda. Soares tributava ao advogado a maior consideração e tinha plena confiança em seu futuro.
Apesar de magro e descarnado, o rosto do advogado tinha expressão muito distinta, sobretudo quando falava com interesse; então a fisionomia e o gesto desenhavam-lhe a idéia, antes que a palavra elegante viesse dar-lhe o colorido.
Quem o escutava recebia ao mesmo tempo pelos olhos e pelo ouvido o seu pensamento, sempre elevado. Cada um dos três candidatos a sol da bela estrela de ouro tinha mais ou menos consciência das suas, como das vantagens dos competidores. O Guimarães confiava na herança e na proteção de D. Paulina, em virtude da amizade antiga que existia entre a mãe da menina e a sua. Bastos descansava no conceito em que o comendador tinha a sua habilidade comercial, e nos trezentos contos bem líquidos, fechados na carteira em bilhetes do tesouro. O Dr. Nogueira contava com a consideração que lhe tributava o comendador, mas sobretudo com as altas e brilhantes posições, cujo prestígio sem dúvida fascinaria mais do que o dinheiro, a um homem habituado como Soares, a nadar em ouro.
Estes eram os títulos que exibiam os campeões em relação à escolha paterna; mas eles, que bem conheciam a Guida, sabiam quanto era importante e necessária a escolha da filha. Por isso empregavam todos os esforços para granjear o amor ou pelo menos a simpatia da linda moça.
Quando se tratava de um passeio, de uma conversa fútil para fazer rir as senhoras, de um brinquedo de sala, ou qualquer outra ninharia, Bastos e Nogueira se arredavam deixando o campo ao Guimarães. Nenhum deles seria capaz de disputar ao moço a palma da garrulhice banal e fofa, que imita as farfalhas de seda, ou os floreios do leque. Quando se ouve discorrer uma dessas nugas encasacadas, parece com efeito que não é um homem que fala, mas um alfinete, um grampo, um colchete, qualquer dos objetos indispensáveis ao vestuário feminino, que de repente adquirisse o dom da palavra.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.