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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Em outras ocasiões D. Flor deleitava-se no meio dessa procissão, que lhe formava uma côrte de princesa daqueles sítios; nessa manhã desejou passear só, talvez que para estar mais presente nos sítios queridos que ia percorrer, e dos quais andara separada tantos meses. 

Trajava a donzela um roupão de sarja, guarnecido de fraldelim pardo, que debuxava a galba palpitante de seu talhe gracioso. A fímbria ao de leve arregaçada por causa da orvalhada, mostrava o pé de menina calçado por um borzeguim preto com o salto escarlate. 

Trazia, ainda na mão, uma capelina de soprilho com rocais da mesma fazenda e franjas de alvas rendas de Guimarães. Logo que chegou ao quintal cingiu a cabeça com êsse toucado, que abrigava-lhe a cútis mimosa dos raios do sol, moldurando-lhe o rosto gentil, como uma grande magnólia silvestre de cuja corola surgisse sua beleza. 

A donzela, deixando o pomar, deu volta ao redor do edifício e foi sair próxima ao casalinho da Justa, para onde se encaminhou. 

A sertaneja estava neste momento sentada na soleira da porta; acabava de ordenhar suas cabras. Perto dela via-se um alguidar onde ia deitando a conta de cada uma. As chuvas das últimas noites haviam enchido as têtas, que já dificilmente apojavam com a sêca. 

Quando a Justa viu a poucos passos sua filha de criação, levantou-se com ímpeto de contentamento e abriu os braços de modo a receber Flor, que lancçou-se-lhe ao colo. Para estreitá-la ao peito, a sertaneja, que não tivera tempo de se desvencilhar do tarro seguro na mão esquerda, nem de lavar a mão direita úmida de leite, cruzou os pulsos, afastando-os de modo a não tocar a menina. 

Êste movimento aproximou da espádua de D. Flor o púcaro no qual a donzela, enquanto deixava-se abraçar, punha os lábios e bebia a rir uns goles de leite.Justa, a quem os brincos da filha querida faziam mais menina que ela, prestou-se à travessura e prolongou-a para gozar da ventura de conservar a moça por mais tempo abraçada. 

— Que bom leite, mamãe Justa! E que saudades que eu tinha dele! O de lá é aguado, não se parece com o nosso! De qual é? Da Cambraia? 

— Não, meus carinhos, é da Mochincha. A Cambraia está amojada. 

Esqueceu tudo quanto tinha que fazer a boa sertaneja, no alvorôço de receber a filha. Não havia no casalinho maior festa, desde a Circuncisão até São Silvestre, do que lhe trazia D. Flor sempre que aí vinha. 

A cabana constava de três peças: uma servia de varanda, outra de dormitório, a última era a cozinha. Todas as portas e janelas estavam abertas, de modo que o ar e a luz entravam francamente com a fragrância dos campos. O chão era de massapé, mas tão rijo e varrido que não se via sinal de poeira. 

À exceção da cozinha, cada aposento tinha uma rede de algodão muito alva. No dormitório a rede faz as vezes de cama; na varanda faz as vezes de sofá, e é o lugar de honra que o sertanejo, fiel às tradições hospitaleiras do índio seu antepassado, oferece ao hóspede que Deus lhe envia. 

O primeiro cuidado de Justa foi correr ao quarto e tirar da sua mala de couro uma rede também de algodão, porém de ramagens encarnadas, com dois palmos de renda na franja matizada. Imediatamente substituiu a outra por esta, que ela ainda não achava bem chibante para sua filha querida. 

— Agora pode sentar-se, meu bem, disse a sertaneja abrindo as dobras. 

D. Flor encostou-se à aba da rede, e fincando no chão a ponta do borzeguim, começou a embalar-se, enquanto a ama ia buscar tudo que tinha de melhor em casa para oferecer-lhe: 

— Prove dêste queijo que está tão fresquinho! É o primeiro dêste ano. Agora com as chuvas as cabrinhas sempre deram para um coalho. 

Depois do queijo fresco, que ainda estava no chincho, vieram os balaios de biscoito, as rosquinhas de carimã, flores de alfenim, em suma toda a provisão de gulosinas que a sertaneja havia feito à espera de sua filha de criação. 

D. Flor beliscou em tudo como uma rôla para dar à sua mamãe, de cada coisa que provava, um novo prazer. 

— Agora basta, mamãe Justa; não faça de sua filha uma gulosa que é muito feio. 

— Iche!… respondeu a sertaneja com o seu muchocho especial. Em D. Flor tudo é bonito. 

— Está me deitando a perder. 

— Torno a dizer! O que nos outros é feio e não se atura, se meu querubim fizesse, todos haviam de ficar encantados. 

— E se eu não lhe quisesse mais bem? Era bonito, diga, mamãe Justa? 

— Isto não pode, ainda que queira! disse a sertaneja sorrindo. 

Justa arrastara um estradinho coberto de couro e sentara-se defronte da donzela para conversar. Enquanto falava, levada pelo hábito de sua vida laboriosa, tirara um fuso da cintura, e por distração mais do que para aproveitar o tempo, começara a fiar as pastas de algodão que estavam dentro de uma cabaça suspensa à parede. 

(continua...)

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