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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Salustiano não se mostrava ressentido disso, e fazia a corte exclusivamente à “Bela Órfã”.

Cândido, um pouco afastado das senhoras, não parecia alegre nem triste; ia, a pesar seu, bebendo a largos tragos o terrível veneno d’alma que se bebe pelos olhos e se concentra no coração. Sem o sentir, ele ficava às vezes em êxtase, contemplando Celina do mesmo modo que pelo pensamento se prendia à vida dela inseparáve1, como a sombra de seu corpo. Longe da “Bela Órfã”, receando aproximar-se, esquecia-se de si próprio em aéreas meditações; ou outras vezes despertava cruelmente sacudido pela mão espinhosa do ciúme, que lhe mostrava um jovem conversando a sós com Celina, ou sorrindo para ela.

Os sinos tocaram nove horas.

– Oh! bem, disse Mariana. Há uma hora que cantamos; deixemos descansar aqueles que nos ouviram, conversemos também.

– A comandante das moças deu a voz de – liberdade! – ao seu batalhão, disse um homem de meia-idade, que se supunha muito espirituoso.

– Então hoje não se dança aqui, d. Celina? murmurou ao ouvido da “Bela Órfã” uma interessante mocinha.

– Eu sei, d. Felícia! se você quer dançar, eu vou dizer a minha tia.

– Deus me livre!

– Mas por quê?...

– Porque aqueles senhores haviam de pensar que eu morro por dançar.

– Que tem isso? pensavam a verdade.

– Sim... sim... porém pensariam também que eu gosto de dançar por causa deles... para conversar... para ouvi-los dizer muitas coisas...

– E não é por isso?... perguntou Celina sorrindo.

– Qual?...

– Então por que é, d. Felícia?...

– Ora, é porque a gente sempre gosta de se mostrar.

– Bravo, d. Felícia, exclamou outra moça, que se sentava perto de Celina.

– Ah! você estava ouvindo, D. Mariquinhas?... pois olhe, é muito mal feito vir escutar o que se está falando em segredo...

– Obrigado pela repreensão, minha senhora, disse um mancebo que delas se aproximava nesse momento; eu a recebo, porque, na verdade, a mereço.

– Oh! não; não era a V. Sa. que eu me estava dirigindo.

– É o mesmo; talhou uma carapuça que me serve às mil maravilhas.

– Pois então sirva-se, disse Mariquinhas.

– Eu confesso que morro por saber um segredo de moça... há sempre tanta graça nos inocentes mistérios de um coração que tem só dezesseis anos!

– Ah! tornou Mariquinhas, e se o senhor soubesse então dos mistérios de um coração como o de d. Felícia, que tem só dezessete anos e meio!

– E desgraçadamente, nem ao menos nutro a esperança de poder sabê-lo um dia!

– E que mistério... era um desejo imenso de...

– D. Mariquinhas! exclamou Felícia.

– Veja como ela cora... não.... não digo. Uma coisa espantosa... que pode produzir conseqüências tão desagradáveis...

– Deveras, minha senhora?...

– O senhor é de segredo?...

– Muito.

– Pois bem: d. Felícia...

– Diga.

– Quer dançar.

O moço não pôde deixar de rir.

– Pois que pensa, minha senhora?... disse ele; mesmo isso é um mistério: quem sabe a razão por que ela quer dançar?...

– Não é por nada, interrompeu Felícia. Eu não disse, eu não desejei coisa alguma; o que me parece é que d. Mariquinhas está doida por uma contradança.

– Lá isso também é verdade...

– Pois é fácil satisfazer seus desejos; eu vou tocar.

O moço dirigiu-se ao piano.

– Ah! d. Mariquinhas! tornou Felícia; você sempre está com disposição para gracejar!...

– Mas agora não foi gracejo, foi cálculo. Eu queria dançar. Olhe, está vendo aquele moço de óculos verdes?... pediu-me uma contradança no último serão e devo pagar-lha neste...

– Como anda você tão adiantada!...

– Qual! pelo contrário, atrasada... estou carregada de dívidas... em três bailes não pago o que devo.

– Bom, lá se tocam os compassos de prevenção... d. Leocádia já está bulindo na cadeira... que maldito costume tem aquela moça!

– Coitada... é com razão. O exercício... o movimento a torna um pouco menos amarela.

As moças foram interrompidas por alguns cavalheiros que a elas se chegaram pedindo contradanças.

Mariana acabava de aproximar-se de uma janela. Salustiano foi ter com ela.

– Uma contradança... a que se vai dançar, minha senhora...

– Esta não é possível, já tenho par.

– A seguinte?...

– Também já a prometi.

– Ao mesmo cavalheiro da primeira, sem dúvida... disse sorrindo Salustiano.

– É verdade, respondeu Mariana sem hesitar.

– O sr. Henrique?...

– Ele mesmo.

– Bem, tornou Salustiano mudando de tom: hei de logo pedir-lhe um obséquio de outra ordem.

Henrique veio dar a mão a Mariana, lançando um olhar de desprezo a Salustiano, que o pagou com seu costumeiro sorrir sarcástico.

(continua...)

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