Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Boa-tarde, minha menina! disse o peregrino.
— Boa-tarde, meu velho! respondeu ela.
— Olhavas com tanta curiosidade para mim, que me lembrei de vir perguntar a causa.
— Ora... é que o senhor vinha pelo mesmo caminho por onde deve vir meu pai.
— Teu pai?... e como te chamas, menina?...
— Isabel, meu velho.
— Isabel?!... repetiu o peregrino com violenta comoção; e depois continuou: Isabel, eu tenho fome, dar-me-ás que comer?
— Sim, sim, entre: nós lhe daremos pão, ovos, bolos e vinho.
O velho peregrino entrou, e daí a pouco foi cercado por toda a família, que lhe ofereceu uma frugal refeição. O semblante desse homem era respeitável: a cabeça estava toda branca, a voz era trêmula e compassada.
— Boa gente, disse ele depois de dar fim à sua alimentação, é hoje o dia em que faz nove anos aquela menina?...
— Sim... sim... e como o sabeis?...
— Eu vos trago novas do Sr. Gil Mendonça...
Um grito de Arabela interrompeu o peregrino:
— E onde está ele?... perguntou.
— Na eternidade, Arabela! respondeu o velho.
— Morto!... morto!... Isabel!... tu és órfã!... e eu sou viúva!... minha mísera filha!
Arabela abraçada em sua filha soluçava de um modo terrível; era a expressão de uma dessas dores profundas, que se trocaria em amargoso e despedaçador silêncio, se ao pé não estivesse uma filha para desfazê-la em lágrimas.
— Minha filha! minha pobre Isabel! exclamou depois de muito tempo Arabela, que te resta agora?...
— A herança de seu pai, respondeu o peregrino; a herança de seu pai, que trazer-vos venho.
Todos olharam admirados para aquele homem.
— Arabela, continuou ele, modera tua justa aflição, e escuta-me; vós todos ouvi-me; Isabel, sossega tua mãe, e atende-me também. Gil Mendonça, casando-se com Arabela, jurou que à força de seu braço saberia ganhar bastante para deixar ao filho, que tivesse, uma herança, que o tirasse da miséria e do infortúnio. Trabalhando sem descansar, trabalhando com ardor admirável, Gil Mendonça não deu um passo avante, e no fim de três anos o céu lhe havia concedido uma filha; mas ele achava-se ainda tão pobre como dantes. Então, entendeu que lhe cumpria ir buscar em outras terras a fortuna; deixou pátria, esposa, filha e família, deixou tudo, e, com sua vontade de ferro no coração, vagou pelo mundo oito anos; mas parece que a sua estrela o tinha condenado a ser pobre, de modo que baldados todos os seus esforços, ele se via sempre o mesmo, tendo por únicos bens a trouxa de seus vestidos e o bordão do peregrino.
Sempre animoso, sempre trabalhando, ele correu a Espanha, a Itália, grande parte da Alemanha e voltou de novo à Itália, entrou na França, sem que a fortuna lhe tivesse sido um dia menos adversa. Há seis meses passados, enfim, ele estava em Provença e se dirigia à cidade de Aix.
Passava perto de uma ermida, viu sua porta aberta, e a ela se dirigiu para ofertar suas orações ao Altíssimo... Dentro da ermida havia sussurro; e passavam-se cenas de horrível profanação... Gil Mendonça entrou e ficou pasmado do que via; o altar estava destruído, imagens santas feitas pedaços rolavam pela terra... homens furiosos... uma horda de demônios em delírio, que em uma mão traziam um facho e na outra um machado, pareciam querer levar a destruição inda além.
Eram os maniqueus, os devastadores dos templos e das imagens, os gênios de destruição e do horror!
Um pobre e velho eremita, um desgraçado monge, coberto de cabelos brancos, e meio caído em um canto da ermida, se abraçava com ardente devoção com uma pequena e santíssima cruz de ouro, que tinha arrancado do altar, destruído logo depois, para assim salvá-la das mãos sacrílegas dos maniqueus.
Esse velho indefeso e inerme estava cercado por vinte miseráveis, que contra ele despejavam pragas, maldições e ameaças.
— Tem ainda uma cruz nas mãos! exclamou um deles, seja quebrada, seja destruída!
— Não! não!... não!... exclamou o pobre monge matai-me antes!...
Mas uma onda de maniqueus caiu sobre ele, e um desses monstros arrancou-lhe a cruz dentre as mãos...
O monge caiu de joelhos, e, levantando as mãos para o céu, pôde apenas exclamar:
— A cruz de Jesus Cristo!... quem salva a cruz de Jesus Cristo!?...
O sacrílego, que arrancara o Santo Lenho das mãos do monge, estava a dois passos de Gil Mendonça, em quem os maniqueus não tinham reparado, e levantava uma pedra para quebrar a cruz, quando com voz de trovão Gil Mendonça bradou:
— Judeu! pára!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.