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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Era consolador o repousar e respirar que Ângela experimentava naquela atmosfera de riqueza. O seu quarto de dormir, quando, anos antes, visitava o pai, era aquele mesmo. Enquanto Vitorina moirejava alegremente na cozinha, a senhora pegou num castiçal e andou percorrendo a casa. Reconheceu a antecâmara de seu pai, entrou e sentou-se na cadeira de espaldar anteposta à banca de escrever. Era esta banca rodeada de escaninhos onde se recadavam cartas. Ângela reconheceu a letra da defunta Beatriz num sobrescrito de carta emaçada com outras. Leu a primeira, em que sua tia relatava os pormenores da fuga, caluniando a sobrinha a ponto de referir que os seus criados a tinham arrancado dos braços do filho do sacristão. Que seria daquela alma, a não se guindar do purgatório alçapremada por quatro mil missas a 240 réis!

Leu a Segunda, em que D. Beatriz participava estar disposta a obrigar Ângela, pela necessidade, a vestir a touca de criada, para que todos soubessem que os parentes, se o eram, (sublinhava ela), a tinham abandonado como infame.

― É impossível que meu pai me receba... – disse entre si amargurada.

Ia retirar-se, quando reparou num cofre de prata que assentava sobre um bufete. Reconheceu-o, porque tinha sido de D. Beatriz. Abriu-o. estavam dentro as jóias que seu pai lhe tinha dado, e sobre elas um cartão com o nome impresso do general, e por baixo, escrito do pulso dele, o seguinte: Estas peças em número de dez pertencem a Ângela, filha de D. Maria d’Antas, já defunta. Se eu morrer em Paris, entreguem-lhas os meus testamenteiros. Procurem-na no mosteiro de S. Bento em Viana, ou onde ela parar. Não tem mais que herdar da casa onde viveu sua mãe.

Fechou Ângela o cofre e voltou profundamente descoroçoada à sala.

Entravam os dois criados com a bandeja do chá. A filha de Maria d’Antas tomou um chávena, e disse:

― Aceito a esmola, Sr. João Pedro. Dirá ao Sr. general que a filha de D. Maria d’Antas aceitou esta chávena de chá, e um leito onde passar uma noite.

― Uma noite! – volveu espantado o velho. – Vossa excelência está em sua casa, penso eu. E, se me não engana o coração, a fidalga não sairá mais da casa de seu pai.

― Amanhã.

― Amanhã! Pois vossa excelência ainda há pouco parecia resolvida a ficar esperando que o senhor general...

― É verdade; mas resolvi outro passo menos desonroso. Amanhã iremos para Barrosas, Vitorina. Aceitaremos o bem-fazer da mulher humilde. Ela foi pobre; será por isso mais compadecida.

― Estou às aranhas, minha senhora! – exclamou João Pedro. – Faça-me o favor de mudar de idéias, e queira desculpar o meu atrevimento. A senhora tenha prudência. Já que veio, fique; que seu pai, quer queira quer não, para fora de casa não a manda...

― Manda – afirmou Ângela com veemência. – Diga-me uma coisa, Sr. João: nunca ouviu falar de mim ao Sr.

general?

― Nunca: eu não sei mentir.

― Quem supõe vossemecê que seja herdeiro do senhor general?

― Os irmãos da mulher com quem ele casou quando tinha dezasseis anos, uns homens de pé descalço, que nunca vieram a esta casa. Eu desconfio, minha senhora, que seu pai está doente da cabeça, há coisa de quatro anos. Os médicos não atinam com a cura por que lhe procuram a doença no peito, e ele tem-na nos miolos; salvo tal lugar. É por isso que eu desejava que ele visse aqui vossa excelência, porque, se a visse, parece-me que atremaria outra vez.

― E, se ele morresse em Paris, eu seria expulsa desta casa pelos homens de pé descalço, não é verdade? – perguntou Ângela.

― Seria o que fosse. Eu, e mais os criados todos, iríamos jurar que seu pai não regulava do juízo quando fez o testamento; e p’ra prova basta dizer que ele mandou trazer da capela do Paço de Gondar o esqueleto da tal Josefa Salgueira com quem foi casado, e tem-no debaixo da cama num caixão de pau de alcânfora. Que-lo mais doido ao pobrezinho do velho?

― Respeite-se a sua dor, embora seja um desatino – disse Ângela. – Então ele amou muito essa mulher?

― Lá isso muito. Ela morreu de aflição, quando o viu ferido em Amarante.

― Já sabia isso. Era uma sublime alma! Conheceu-a?

― Se conheci! Andava ela com o rebanho das ovelhas, quando eu era rapazola de quinze anos. Era muito linda, isso era!

― E de minha mãe, lembra-se?

― Da senhora D. Maria d’Antas?... pois não lembro! Isso foi ontem! Fui criado dela dez anos... como hei de eu não me lembrar?

― A Vitorina diz que era muito formosa...

― Era vossa excelência sem tirar nem pôr. Estou a vê-la. Só era um poucachinho mais alta e corada. ― Lembra-se se ela era muito minha amiga?

― Parece-me que sim...

― Por quê?

― Foi ela quem a criou: não quis ama, como todas as mães que tem de seu.

― Lembra-se da morte dela?

João Pedro respondeu tardamente e tartamudo:

Não me recordo bem... Eu estava então na quinta de Santo Amaro... Lá é que me chegou a notícia de ter morrido a fidalga... E, quando voltei, o Sr. Simão de Noronha já estava fora de Portugal...

― Mas o Sr. general não mandou buscar os ossos de minha mãe? – perguntou Ângela, chorando no sorriso.

O velho não respondeu.

― Vamos deitar, Vitorina. Até amanhã, Sr. João Pedro.

― Muito bem passe a noite, fidalga.

(continua...)

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