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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Barba-de-Bode morava por uma rua daquelas em que os lajedos dos passeios fazem montanhas russas e macadame da rua dá saudades do barro batido. Era a casa comum da Cidade Nova, uma pequena casa com a indefectível rótula, janela, duas alcovas, salas, onde moravam ele, a mulher, uma irmã e um filho menor, além de um hóspede, um russo, o Dr. Bogoloff.

Não era das mais povoadas, pois outras havia em que se amontoavam no seu estreito âmbito oito e dez pessoas.

A mobília era a mais reduzida possível. Na sala principal, havia duas ou três cadeiras de madeira, com espaldar de grades, a sair de quando em quando do encaixe, ficando na mão do desajeitado como um enorme pente; havia também uma cômoda, com o oratório em cima, onde se acotovelavam muitas imagens de santos, e, cá do lado de ora, queimava uma lamparina e secavam em uma velha xícara ramos de arruda. Na sala de jantar, havia uma larga mesa de pinho, um armário com alguma louça, um grande banco e cromos e folhinhas adornavam as paredes.

De manhã, quando Lucrécio saiu do quarto, toda a família já estava de pé. A irmã lavava ao tanque, no quintal; a mulher já varrera a casa e preparava o almoço e o filho fora em busca do O Talismã, famoso jornal de palpites do “bicho”, em que toda a casa tinha fé. Não havia dia que não o comprassem e bem duas horas levavam a decifrá-lo, a estudá-lo, para afinal jogarem aquelas pobres mulheres um cruzado, se tanto.

O jornal do “bicho” é procurado e lido; é o mensageiro da abundância, é a esperança de salvar compromissos e poderosamente concorre para a realização de casamentos e batizados. A nossa triste humanidade sempre pôs grandes esperanças no Acaso...

Se uma viúva, tem que casar a filha e meios não lhe sobram, só um recurso há: acertar no “bicho”, na dezena e centena, com o auxílio do jornal bem informado. Os redatores desses jornais vivem assediados de cartas, pedindo palpites nas dezenas e centenas; e, nestas cartas, os missivistas, em geral do sexo feminino, confessam as suas misérias e necessidades, mais íntimas, segredos do coração.

O primeiro cuidado da mulher de Lucrécio e da irmã era comprar o jornal e, muitas vezes, sem dinheiro para jogar, compravam por prazer e devoção.

A mulher de Lucrécio, Ângela, era mulata como ele, mas franzina, um pouco mais clara, feia, avelhantada precocemente e docemente triste; a irmã era forte, mas pesada de corpo, um rosto curto e nariz grosso e uns olhos empapuçados. Era casada, mas do marido não tinha notícias e perdera os filhos em pequena idade.

Lucrécio, depois de banhar-se, pediu à mulher que lhe desse de almoçar; queria sair cedo.

— Já está pronto o que há — disse ela.

Ele acabou de vestir-se e sentou-se logo à mesa do almoço. O filho voltou com o jornal; e, um instante, Lucrécio olhou a criança com o olhar mais preocupado.

— A benção, papai?

— Deus te abençoe, meu filho.

O pai viu ainda os olhos luminosos da criança, carbunculando nas escleróticas muito brancas e pensou de si para si: que vai ser dele? Lembrou-se de dar-lhe dinheiro para os sapatos com que fosse à escola, mas estava atrasado na casa. A desordem de sua vida; antigamente... Que vai ser dele? Bem, arranjaria um emprego, fa-lo-ia estudar, e havia de tomar caminho. Que vai ser dele? E logo lhe veio o ceticismo desesperado dos imprevidentes, dos apaixonados e dos que erraram; há de ser, como os outros, como eu e muita gente. É sina!

A mulher foi pondo os pratos na mesa e Lucrécio se foi preparando para comer.

— Não fizeste arroz, Ângela?

— Não. Para quê?

— Quero arroz — fez com azedume Lucrécio.

Havia entre os dois essa necessidade de rixa e parece que cada um deles queria por esse meio manifestar ao outro as desilusões que se trouxeram reciprocamente. Às vezes, era o marido a provocá-la; em outras, a mulher; entretanto eles viviam unidos, trocando heróicas dedicações.

— Se você quer — disse-lhe a mulher — é mandar buscar. — Por que você não mandou?

A irmã continuava a lavar no tanque e Lúcio, o filho de Barba-de-Bode, assistia encolhido a um canto a discussão entre os pais. Tinha as mãos entre as pernas e olhava um e outro quase ao mesmo tempo.

— Não mandei... Por que você não se levanta mais cedo e diz o que quer? Não adivinho!

À vista da insistência da mulher, Lucrécio fez-se calmo, pensou um pouco e disse ao filho:



(continua...)

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