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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

E tantas fez que em torno dele formou-se uma reputação de espírito e bom humor. D. Pedro quis vê-lo.

Entrou-lhe no aposento muito sério, com a compostura solene e grave de um imperador que também gosta da troça, mas deseja conservar a sua força moral.

Falou no ferimento, mostrando-se muito sentido com o acontecimento, lamentando-se do ocorrido, mas sem uma alusão ao Satanás.

- Ora senhor, ora senhor, isto não foi, não foi nada, explicou d. Bias. - O ferro entrou-me apenasdez polegadas no braço. Uma ninharia!

- Sim. Não foi nada, mas podia ser fatal.

D. Bias respondeu com um forte oscilar desprezível de ombros. Que não se importava. Que já estava acostumado àquelas cousas.

- Em todo caso posso garantir-te que não tinha vontade nenhuma de te matar.

- Ora senhor! Por quem é não falemos mais nisso. Eu até já vou me esquecendo de que fuiferido. A força do hábito, sabe, a força do hábito!

- Com que então tens sido ferido muitas vezes?

- Nem contas há que as possa enumerar.

E narrou:

- De uma, lá nas Espanhas, voltava eu muito sossegado de três duelozinhos pequeninos emque tinha morto os quatro adversários quando me saiu à frente um piquete de cavalaria comandado pelo irmão dos cinco rapazes que eu acabava de remeter para os infernos.

- E brigaste contra todo o piquete?

- Qual briguei! qual nada! Matei-os a todos sem exceção de um cavalo.

- Mas então não foste ferido!

- Fui, sim, senhor! Quando não havia mais adversários contra quem pelejar, caiu uma tempestade e veio um raio com tanta força que...

- Foste queimado?

- Qual queimado! Senhor! Feri-me eu mesmo com a minha espada indo a desviar-me do raio.

- E onde?

- Já não me recordo mais. Mas, caramba! que aquilo, sim, foi um golpe bem dado e de mão demestre. Voou um braço para aqui, uma perna p'ra ali e a cabeça não sei para onde.

- Diabo! Pois tu te fizeste assim em pedaços?

- Qual eu! qual nada! Senhor. Foi o inimigo.

- Mas que inimigo?

- Ah! Eu não sei.

D. Pedro não pôde conter uma gargalhada e saiu.

Saiu, alegre da vida, cantarolando umas cantigas brejeiras. E teve uma idéia. A idéia de fazer uma caçoada com d. Bias, de pregar-lhe um bom susto. Deviam ser interessantes a cara e as falas do aventuroso cavaleiro das Espanhas, quando lhe aparecesse diante de si um fantasma ameaçador e tétrico que contra ele investisse numa encenação apavorante de tragédia. E, nas boas disposições de espírito em que estava, d. Pedro tratou logo de preparar a pilhéria.

Vieram-lhe a princípio dúvidas para escolha entre diversos projetos que se lhe apresentaram à imaginação. Mas, à noite, quando se despedia da cigana, lá no circo do Valongo, resolveu-se, enfim, e pediu ao Vampa que lhe vendesse um esqueleto articulado, que havia a um canto da parede e de que o saltimbanco se servia nas suas mágicas e pantomimas.

Trouxe-o, ruas afora por aquela noite escura, debaixo da capa, como um mistério, bem junto a si, como uma profanação.

E, quando entrou no Paço, antes de cear, foi logo ao quarto de d. Bias.

Segurando o esqueleto pela coluna vertebral, mal envolveu-o na capa, o bastante para esconder-se a si e para permitir que o descendente do soldado de Cid Campeador pudesse ver toda a horrível conformação espetral do fantasma. D. Bias dormia.

Uns pratos vazios, muito lambidos e uma garrafa escorropichada, atestavam que o valente cavaleiro andante das aventuras contadas acabara de cear; lautamente, mais lautamente do que era permitido supor a quem o visse magro e esgalgado, um esqueleto ele mesmo. Acordou e gritou.

Sobre o peito descansa-lhe a ossadura descarnada da mão do esqueleto. E a olhá-lo, com o grande olhar tenebroso e mau das caveiras, estava um vulto bem junto a si, debruçado sobre o seu leito. Gritou.

Gritou e retorceu-se todo na cama, nu e esquelético, envolto na mortalha alvadia do lençol, fantasma contra fantasma. D. Pedro ria-se.

E largou o esqueleto que então caiu todo inteiro sobre d. Bias.

Foi, nesse momento, um espetáculo diabolicamente nunca visto e nunca sonhado até então.

Por entre os lençóis e a capa, no belo contraste do preto e branco, debatiam-se os dous. D. Bias a contorcer-se todo, a querer desvencilhar-se desse novo companheiro de dormida, animava-o, fazia-o viver, emprestava-lhe movimento.

- Por Dios! choramingava o espanhol, por Dios! Não me faça nada! Deixe-me em paz, tenha pena de mim!

E fazia-se súplice, e queria erguer-se para ficar de joelhos, para pedir piedade, para comprometer-se a tudo quanto o fantasma quisesse, para tornar-se submisso e escravo, enfim, com tanto que o deixasse viver.

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