Por Aluísio Azevedo (1895)
- Mas esses nomes - acudiu Teobaldo recorrendo às leituras que fizera na província - esses nomes são todos muito distintos. O senhor está citando os nossos poetas mais conhecidos!
- Ah! ninguém nega que não sejam conhecidos, nem que não sejam poetas, mas posso afiançar-lhe que não são homens sérios.
- Homens sérios?... Que diabo entende o senhor por homem sério?
- Ora essa! Que entendo por homem sério? - é boa! Por homem sério entendo todo aquele que não dá escândalos, que não é tratante e que se ocupa em alguma coisa séria! Enfim, todo aquele que trabalha! - Então quem escreve não trabalha? - Não digo isso, mas...
- Acabe.
- Mas não é um trabalho sério!
Teobaldo, em vez de prosseguir no diálogo, olhou para o Sampaio com um gesto que tanto podia ser de lástima como de repugnância, e, deixando escapar o seu predileto sorriso de ironia, ergueu-se, bateu-lhe levemente no ombro e disse: - O senhor é um grande homem!.. . Mas eu preciso descansar. Boa noite!
Semanas depois, mudaram-se os dois rapazes para Mata-cavalos, levando em sua companhia o moleque.
Teobaldo, no meio da casa, envolvido em um robe-de-chambre de seda azul, um cigarro entre os dedos, dirigia a colocação dos móveis.
- Esse espelho ali, ó André! E a secretária deste outro lado. Assim! Agora, vejamos onde deve ficar o piano... Ah! cá está o lugar dele, aqui, entre estas duas janelas. E anda com isso, ó Sabino! que ao contrário não se acaba tão cedo a arrumação!
O Sampaio espantara-se quando ele lhe dera a lista dos móveis que precisava.
- Pois o senhor também quer cortinas? exclamou arregalando os olhos.
- Quero tudo isto que aí está notado, respondeu o estudante; - o resto me encarrego de comprar pessoalmente.
- O resto? Há então ainda outras coisas além disto?...
- Sem dúvida. É preciso alegrar a casa com alguns objetos de arte, Chegam-me quatro ou cinco estatuetas...
- Estatuetas?...
- ... uma pêndula de bom gosto, dois jarros para flores e meia dúzia de quadros.
- Mas o senhor onde já viu casa de estudante com esse luxo?
- Não preciso ver para usar: se faço deste modo é porque assim o entendo. Compreende?
- Bem, bem! isso é lá com o senhor... Tem ordem franca...
E jurou consigo que Teobaldo não havia de ir muito longe com aquelas tafularias.
A casa, depois de cada objeto no seu lugar, não parecia com efeito destinada à habitação de dois estudantes ainda tão novos; tal era a boa ordem o asseio, o gosto bem educado e familiar que a tudo presidia. Tanto assim que a proprietária e locadora do prédio, que a principio não se mostrara lá muito satisfeita com os novos hóspedes, rejubilava-se agora ao ponto de lhes propor que almoçassem e jantassem com ela, mediante uma estipulada mensalidade.
Instalado, cuidou Teobaldo de arranjar os necessários explicadores para os preparatórios que lhe faltavam e mais ao Coruja, e dispôs-se a estudar com afinco.
Mas o seu espírito inconstante e vadio não se queria fixar sobre um ponto certo, e os dias passavam-se em repetidas polemicas a respeito da carreira que ele devia abraçar. - Mas, afinal, é preciso que te decidas por alguma... . dizia-lhe o Coruja. - Se não saíres dessa hesitação, acabarás fatalmente por não estudares nada!
Teobaldo principiava sem dúvida a demorar muito a escolha de uma profissão. Ao sair da sua província vinha aparentemente resolvido a repetir na corte os preparatórios e seguir logo para a Academia de S. Paulo. O direito, porém, se lhe apresentava à trêfega fantasia com o insociável aspecto de um velho carregado de alfarrábios, tressandando a rapé, fanhoso, pedantesco, sem bigode e de óculos na testa.
- Abomino-o! exclamou ele a discutir com o amigo. - Aquilo nem é ciência: e uma coisa toda convencional... uma coisa arranjada segundo o capricho de quem a inventou! Nada possui de certo e determinado! No direito tudo admite sofismas; tudo se pode inverter; tudo está sujeito a mil e um alvarás e a duas mil e tantas reformas! Além disso, consta-me que ninguém pode se gabar de saber direito antes de lidar com ele pelo menos quarenta anos! Oh! bela carreira! bela carreira, que exige quase meio século de estudo para se ficar sabendo dalguma coisa dos seus mistérios!... E, demais, que diabo de vantagem oferece o tal direito?.... A magistratura? Deus me defenda! A advocacia? Mas eu detesto os advogados!
- Por que? atalhou o Coruja.
- Ora! Qual é o papel de um advogado, qual é a sua missão? Defender os réus; muito bem! Mas, das duas uma - ou o réu não tem crime e nesse caso está defendido por si; ou o réu é um criminoso, e não menos será aquele que, por meio da eloqüência e da astúcia de seu talento, conseguir provar que ele é um inocente!
- Isso é asneira!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.