Por Aluísio Azevedo (1891)
— E por que razão havia eu de amá-lo?...
— Ora essa! Por que razão é que os outros se amam? ...
— Mulheres da minha espécie, caro poeta, só amam, quando as fascina qualquer cousa extraordinária, muito extraordinária! Seja o que for, mas que seja— extraordinária!
— Paciência!... Todavia, quero crer que o marquês de Florans nada tem em si de extraordinário, e no entanto...
— É meu amante... Ah! O caso é outro! O marquês é muito rico... pode dar-se a esse luxo!... Ama-me, daí porém a ser amado—vai um abismo! — Se o marquês a ouvisse?...
Alzira sacudiu os ombros.
— Ele sabe disso tão bem como eu; a ninguém engano! ...
— Nem ama, tampouco!
— Quem sabe lá?... Talvez...
— A condessa? Qual! Duvido! A senhora não é mulher! Não tem coração!...
— Então que sou eu?...
— E um lindo cofre de marfim rosado, com o competente orifício para receber o ouro dos papalvos.
— E era para dizer-me semelhante galanteria, que o poeta há tanto tempo fazia empenho de vir à minha casa?
— Não! Era na esperança de ser correspondido no meu amor...
— O cavalheiro às vezes não me parece um homem de espírito...
— Em questões de amor todos os homens são igualmente estúpidos!...
— Mas, valha-me Deus, Bouflers! por que razão havia eu de amá-lo?... O senhor é um bonito rapaz, não há dúvida; está na flor da idade, não lhe falta talento, mas... é só isso!...
— E acha pouco?... moço bonito e com talento. Tenho os encantos das três graças — mocidade, amor e beleza, e ainda me sobra um!
— Não — dois — o talento e a vaidade.
— Ou isso!
— Mas falta-lhe o principal...
— O que não falta ao marquês... dinheiro?...
— Qual! O dinheiro não se conta...
— Não se conta?...
— Gasta-se!
— Então que me falta? Juízo, talvez...
— Ainda menos! O juízo é a negação do espírito! ...
— Então não sei que me falta!...
— Sei-o eu! exclamou uma voz grossa.
E o marquês surgiu defronte de Bonflers, fulo e trêmulo de raiva.
— Oh! Oh! interjeicionou este, zombeteiramente e sem se alterar. Estava escondido, senhor marquês?... Divertia-se a escutar-nos... Magnífico!
E voltando para Alzira:— Obrigado, condessa! Depois resmungou de si para
si:
— Pagá-lo-ão bem caro!
O marques, sem poder domar a cólera que o sufocava, prosseguiu no tom em que começou:
— A qualidade que lhe falta, senhor poeta, não é dinheiro, nem juízo; é prudência! É grande temeridade dizer mal de quem quer que seja à própria amante dessa pessoa!
— Não é só temeridade... respondeu Bouflers, pondo a mão na cintura e empinando a cabeça: é insolência. Estou às suas ordens! Avie-se!
A condessa correra para junto de Florans.
— Lembre-se do que me prometeu!... disse-lhe ela rapidamente e em voz baixa.
— Só não me baterei... segredou o marquês ao ouvido da amante, se a senhora não me fechar a sua porta...
— Não fecharei, marquês!
— Pois não me baterei, Alzira!
Bouflers, que durante este curto diálogo, media os dois com ar de desprezo, entortando a cabeça e sacudindo a perna gritou para o marquês, como se falasse ao seu cocheiro:
— Olá, senhor pregador de prudência, é esta que o aconselha a consultar a sua amante, antes de pôr a limpo as injúrias que lhe fazem... Creio ter dito bem alto que estou às suas ordens!
— Não me bato com o senhor... balbuciou o outro.
— Ah! Ah! escarneceu o poeta. Já o desconfiava! ...
E calçando de novo a luva, que ele havia principiado a despir:
— Pois chega-me a vez de dar-lhe também um conselho: quando não se reconhecer com animo de assumir dignamente a responsabilidade dos seus atos, meça melhor as palavras e não se apresente como se apresentou defronte de mim!
— Insolente! bradou o marquês, avançando de punho fechado sobre Bouflers.
— Então!... interveio Alzira, metendo-se entre os dois.
— Mas este atrevido afronta-me! exclamou Florans.
— Pois é desafrontar-se! retorquiu o poeta. Para isso tem uma espada à cinta!
Alzira chegou os lábios ao ouvido do marquês.
— Se aceitar o duelo, disse-lhe; não ponha mais os pés aqui!
O fidalgo fez cor de cera e murmurou imperceptivelmente:
— Esta mulher despoja-me de tudo!...
Bouflers sorriu e acrescentou:
— Registre, condessa, mais esta qualidade a meu favor:— a coragem! — Vale menos que as outras neste instante... desdenhou Alzira.
E tomando as mãos do marquês: — Em certos casos, o forte é aquele que resiste à provocação. Obrigado, meu amigo! Poupou-me remorsos!... Ah! já os tenho em demasia!... Creia que lhe estou grata!... Quanto ao senhor, cavalheiro... E voltou-se para Bouflers, fazendo-lhe um gesto de despedida.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.