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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Vai! sempre vai! Não o pude convencer do contrário!

— Bem! disse o irmão.

E deitou a correr para o hotel. Temia já não encontrar Violante, mas, ao subir as escadas do Estaminet, viu luz nos aposentos da oriental; ficou mais tranqüilo e entrou no seu próprio quarto, fingindo a melhor calma que pôde.

— Boa noite, disse ele, em voz alta, para ser ouvido pela companheira.

— Boa noite, Gaspar, respondeu Violante, com a voz meiga. Supunha que se não recolhesse hoje...

— Ao contrário, estou caindo de sono...

— Divertiu­se?

— Fiz um passeio...

— À Olinda?

— Não. A Cachangá.

— Que tal?

— Bonito.

Você vai escrever?

— Não; Por quê?

— Por nada. É que precisei do seu tinteiro, e esqueci­me de levá­lo de novo para aí...

— Não preciso dele agora.

— Então boa noite.

— Até amanhã, minha amiga.

E cada um apagou a vela de seu quarto.

Violante fingiu que se preparava para dormir, enquanto Gaspar fazia, a cantarolar, justamente a mesma cousa.

Daí a meia hora, este obteve o que ambos desejavam conseguir: enganar o outro.

Eram três horas, pouco mais ou menos. Então, Violante, descalça e cheia de precauções, abriu imperceptivelmente a porta do seu quarto e, tateando nas trevas, alongou para fora um dos braços.

Mas, na ocasião em que ia sair, sentiu uma nervosa mão segurá­la pelo pulso.

— Onde vai? perguntou Gaspar.

— Deixe­me! impôs a oriental, com alvoroço na voz.

— Quero saber onde vai, minha senhora. Disse­lhe já quais são as intenções que tenho a seu respeito, e creio que elas me autorizam a semelhante exigência!

— Dir­lhe­ei tudo depois; agora não posso. Preciso sair imediatamente.

Não irá!

E Gaspar forçou Violante a entrar novamente para o quarto, e obstruiu a porta com o corpo.

— Com que direito se atreve o senhor a tanto?!

— Com o direito do homem, que tem sido publicamente seu marido; o homem, a quem a senhora prometeu a mão de esposa e a quem disse ser uma mulher honesta!

— Juro que não vou cometer nenhuma deslealdade; além disso, desisto dos votos que fiz, desisto de tudo! mas deixe­me passar, com todos os diabos!

Esta cena realizava­se no escuro. Gaspar deu volta à chave e, fechando com a oriental por dentro da alcova, riscou um fósforo e acendeu a vela.

— Não sairá daqui! já disse!

— Ah! que o senhor abusa! rosnou Violante com um olhar terrível.

— De que, minha senhora?

— De minha paciência!

E a oriental sacou o punhal do seio.

— Lembre­se de que, ao herdar este ferro, exclamou lívida de cólera, já ele tinha servido muitas vezes! Lembre­se de que com ele herdei igualmente o caráter de meu pai e o sangue de minha mãe! Afaste­se, ou eu abrirei caminho!

— Pode abrir! disse Gaspar, apresentando o peito. Já que vai matar o filho da mulher que lhe serviu de mãe, é justo que primeiro assassine o filho daquele que lhe serviu de pai... é muito razoável que os dois velhos se cubram de luto na mesma ocasião. Vamos! uma vez que tão depressa se apagou desse coração a memória do honrado militar que a recolheu um dia ao seu amor, não é muito que lhe roube a última consolação da velhice... Mate­me! Não me defenderei, porque não levanto mão contra quem amo!

Violante atirou para trás o punhal, caiu aos pés de Gaspar:

— Perdoa, meu amigo, meu esposo, meu senhor! Sei que sou má e que só mereço desdém e menosprezo dos homens sensatos, sei que és um moço generoso e leal, e que para mim só desejas o bem e a ventura; mas, deixa­me ir, por piedade! eu preciso descarregar do coração esta sede terrível, que se tem alimentado até hoje do meu próprio sangue; eu preciso arrancar da minha consciência o desespero de não haver cumprido o meu voto! Deixa­me seguir o destino da minha raça, deixa­me dar de beber ao meu ódio, e de mim farás depois o que entenderes! Poderás desprezar­me à vontade, e eu te beijarei os pés e te servirei como escrava! Mas deixa­me ir! o tempo urge! a hora da fortuna vai fugir! e amanhã o covarde sabe que quero matá­lo e esconde­se nos braços da mulher! Pelo amor que tens a teu pai, pelo respeito que te merece a memória de tua mãe, deixa­me passar, meu amigo, meu protetor!

Gaspar levantou­a do chão e amparou­a nos braços.

(continua...)

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