Por Bernardo Guimarães (1883)
Lucinda não quiz ouvir mais nada, si bem que o velho se mostrasse disposto a narrar-lhe por miudo todas as horriveis façanhas daquella execravel mulher. Pedio desculpa allegando que era captiva e morava longe, despedio-se, e si depressa tinha vindo, mais depressa voltou para a cidade, onde chegou pela volta do meio dia. A noticia de que Nha-Tuca estava viva, mas ás portas da morte, dava-lhe azas, e a robusta creoula, a despeito de sua edade e corpulencia, em menos de meia hora venceo a distancia de mais de meia legoa, que a separava da cidade.
Conrado, com o espirito desasocegado e entregue a crucis tribulações, achava-se em caso pensando no modo por que havia de passar as longas horas que ainda tinhão de decorrer até o prazo em que Lucinda promettera voltar com a resposta tão impacientemente esperada, quando inesperadamente a creoula, que o creado da porta tinha ordem de deixar entrar a qualquer hora que apparecesse, se lhe apresenta arquejante de cansaço e coberta de suor.
O que é isto, Lucinda? — perguntou o moço sobresaltado. — Que novidade temos?... vens tão cansada e tão antes da hora marcada!...
— Socega seu coração, Nhó Conrado. — respondeo Lucinda a offegar. — O negocio não vae mal por ora. .. Vim depressa e antes da hora, por que assim era preciso. A mulher ainda vive...
— Vive' louvado seja Deos ! — exclamou Conrado levantando as mãos ao céo; — tudo está remediado. Rozaura, minha filha, vaes ser livre e restituida aos braços de teu pae!...
— Vive, sim senhor; mas está mal, quasi a morrer. Deixemos de mais conversa. NhÔ Conrado é preciso ir lá já e já, quanto antes; a cada momento ella póde expirar.
— Tens razão, Lucinda; tens razão; vou já. Conrado chamou immediatamente o seu pagem, e deo-lhe ordem para que sellasse depressa o seu melhor cavallo. Einquanto isto se fazia, Lucinda dava a Conrado as indicações necessarias, para que acertasse com o logar em que se achava situado o rancho de NhaTuca.
Lueinda retirou-se para a casa, e Conrado partio a galope para as bandas da freguezia de Nossa Senhora do O.
CAPITULO XI
Nha-Tuca e sua choupana.
Ainda alguns caipiras ociosos e folgazões se achavão reunidos junto á porta da taverna do francez, uns conversando, outros cochilando, outros cantando e tocando viola sentados no patamar, quando virão despontar na volta da estrada pelo lado da cidade um cavalleiro, que vinha a grande galope, e que em poucos instantes veio esbarrar diante delles o seu lindo e garboso cavallo alazão, todo arquejante e coberto de espuma. Era um mancebo de trinta e tantos annos; de porte esbelto, de physionomia nobre e sympathica, e que trajava com primoroso esmero e elegancia.
Pódem fazer-me o favor de mostrar—me onde mora por aqui uma pobre velha, que se acha muito mal, chamada Nha-Tuca? perguntou o cavalleiro, depois de ter saudado
cortezmente a comitiva.
Os caipiras fitárão sobre elleum olhar espantado, e o deixárão por alguns instantes esperando a resposta. Cada qual queria responder, mas revolvendo o chapéo entre as mãos, e olhando, ora para o elegante cavalleiro, ora uns para os outros, ora para o chão, ficárão como engasgados, esperando cada um que o seu vizinho o antecipasse na resposta. Si esses mesmos homens ainda ha pouco estranhárão altamente .que Lucinda lhes pedisse novas de Nha-Tuca, quanto maior não devia ser seu pasmo e sorpreza, quando virão aquelle nobre cavalleiro perguntar com tanto interesse e açodamento pela brucha excommungada, que era objecto de asco e desprezo para todo o mundo por aquella redondeza. A este porém não ousárão responder com apodos e galhofas, como fizerão com a pobre creoula.
— Está alli mesmo á vista, patrão ; é acolá, — respondeo por fim um delles, apontando para o rancho de Nha-Tuca.
O cavalleiro agradeceo com um gesto, e tocou o cavallo a galope para o sitio indicado.
Ché ! que cousa, Deus do céo ! um moço tão chibante e luzido, que terá que fazer na
casa daquella velha tartaruga amaldiçoada ? disse um dos da roda, apenas o cavalleiro se distanciou.
— Quem sabe si é parente, nhó Tico ?... ponderou outro. A velha já foi rica, e diz que é filha de muito boa gente.
— Ché ! que esperança, nhÔ Neco ! Nha Tuca ter um parente daquella qualidade!... fóra o irmão, que ella matou, nunca teve parente mais nenhum, que eu saiba.
Não é nada disso, gente; o que eu estou lembrando é que aquelle moço é alguem, a quem a velha fez alguma maldade, e que lhe vem pedir contas na hora da morte. Fóra do que já anda ahi na bocca do povo, na casa daquella velha fazia-se muita cousa ruim, que até hoje ninguem sabe.
— Isso é que bem póde ser, NhÔ Quim ; mas já agora não arredo pé daqui, emquanto não ficar sabendo em que isto se para. Aquelle moço de certo não ha de ficar toda vida em casa da brucha ; ha de voltar e por fim de contas sempre se ha de saber alguma cousa.
— E eu tambem daqüi não saio, emquanto elle não voltar ; estou afflicto por saber em que dá esta embrulhada.
— E eu tambem, — repetirão todos os outros. — Valnos ver em que isto dá.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.