Por Visconde de Taunay (1872)
O senhor é como se fosse dos meus. Não há que ver, é o que ele quer. Entendi logo; o mais é ser multo bronco e, com o favor de Deus, não me tenho nesta conta. O senhor ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras, meus escravos, gado... tudo o que aqui achar. Parta e reparta.. Quem está falando aqui, não é mais dono de coisa nenhuma;... é o senhor... Meu irmão me escreveu, é escusado pensar que não sei respeitar a vontade de meus superiores e parentes. É como se recebesse uma ordem do punho do senhor D. Pedro, filho de D. Pedro I, que pinchou os emboabas para fora desta terra do Brasil e levantou o Império nos campos do Ipiranga, lá para os lados de São Paulo de Piratininga, onde houve em seu tempo colégio de padres e fradaria grossa, e donde os mamelucos saiam para ir por esses mundos afora bater índios brabos e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguai e no Salto do Paraná, tanto assim que deram nas reduções e trouxeram de lá uma imundície de gente amarrada, por sinal que muitos amolaram a canela em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão magros que...
Enfiava Pereira todas estas frases com surpreendedora rapidez, ao passo que Meyer o contemplava extático, à espera que a torrente de palavras lhe desse tempo e ocasião de exprimir algum vocábulo de agradecimento.
Só, porem, minutos depois, e a custo, é que ele pronunciou um áspero e retumbante:
—Obrigado!
E acrescentou em seguida:
—Mas o senhor fala que nem cachoeira. E não cansa?
—Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da minha terra é de seu natural calada; eu, não; mesmo porque fui criado em povoados de muita civilidade...
Tomando esse novo tema, começou novamente a discorrer, mostrando visível contentamento por achar na estimável pessoa do senhor Guilherme Tembel Meyer um ouvinte de força, incapaz de pestanejar e cuja fixidez de olhos era prova evidente de que tomava interesse por todos os assuntos possíveis de conversação.
CAPÍTULO XI
O ALMOÇO
Comam e bebam: nada de cerimônias comigo. Minhas casa e franca; eu também. Façam provisão de alegria e de mim disponham sem constrangimento.
(Plauto. Miles Gloriosus).
Levantou-se de repente Cirino da marquesa em que se sentara.
—Tenho vontade de amanhã seguir viagem...
—Quê, doutor? protestou Pereira. Partir já? isso nunca... Vosmecê ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuízos da sua estada aqui... se for preciso.
—Oh! Senhor Pereira, reclamou por seu turno o jovem, isso quase me ofende...
—Desculpe-me, e muito; mas, antes de duas semanas, não o deixo sair daqui.
—Porém...
—Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vai ser visitada como se fosse casa de presepe, e o senhor não poderá dar vazão aos que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui a pouco está ele cá, rente como pão quente. Atrás do primeiro, virá uma chusma dos meus pecados... Então quer deixar Nocência como ainda esta?...
—Verdade é, balbuciou Cirino.
—Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta; vosmecê há de aqui arranjar os seus negócios.
—Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexá-lo. Uma vez que até cá venham doentes...
—Hão de vir, esteja sossegado...
—Ficarei, decidiu Cirino, quanto tempo for do seu agrado.
—Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera satisfação, estou como quero. Quanto ao senhor Maia... Meyer, quero dizer, este há de criar raízes nesta casa...
—Isso também não: tenho tempo marcado pelo meu governo...
—Bem, bem; mas em todo caso, fará uma boa temporada conosco. É pena que o Manecão não chegue, porque apressávamos o casório, e arranjávamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas estou aqui a dar com a língua nos dentes, sem pensar que os nossos estômagos ainda esperam sua matula. O almoço não pode tardar; é um pulo só... Se consentem vou ver lá dentro.
Ao dizer estas palavras, saiu da sala, voltando pouco depois acompanhado de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente cuia de farinha.
— Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. senhor Meyer, o senhor comerá dora em diante comigo e com a menina, lá no interior da casa; ouviu?
E, voltou-se para Cirino.
—Bem sabe, explicou logo, como se fosse o Chiquinho.
Depois de pronta a mesa, sentaram-se os três alegremente.
—Olhe, senhor Meyer, disse o mineiro servindo o alemão, isto e feijão-cavalo e do melhor. Misture-o com arroz e ervas; deite-lhe uns salpicos de farinha...
Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercício para exclamar:
—Delicioso, com efeito! Muito delicioso.
Comia Cirino pouco e em silêncio.
—Na Alemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria polegada e meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxônia dois táleres, ou pelo câmbio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e quinhentos réis...
Interrompeu-o Pereira com gesto cômico.
—Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.