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#Romances#Literatura Brasileira

O Cabeleira

Por Franklin Távora (1876)

— Eu logo vi que tinha pela frente o ingrato Cabeleira — disse Liberato, que só a seu grande animo devia estar ainda de pé. — Já que mataste meu irmão, miserável, podes também tirar me a vida agora; mas fica sabendo que não lograrias o teu intento se não fosse o adjutório de teus cobardes companheiros.

A palavra ingrato José sentiu surgir lhe espontâneo remorso na consciência, e instintivamente recolheu o ímpeto com que ia dar em Liberato o golpe de honra.

— Não fui eu que matei Gabriel — disse sem se sentir, sem o querer o malfeitor.

— Fui eu, fui eu — trovejou Joaquim com fúria aterradora. — E que tem isso ? Pois ainda estás dando satisfações a este negro, Zé Gomes ?

Ouviu se então o estalo de galhos e cipós que se romperam com violência inesperada para deixarem passar um corpo ágil, que foi cair de um salto à frente de Liberato. Esse corpo, ou antes essa onça petulante, irritada e cruel, não era senão o pai de Cabeleira.

— Rende te, negro — gritou Joaquim ao infeliz, descarregando lhe sobre a cabeça, já em diferentes partes mutilada o facão que trazia na mão esquerda, enquanto com a faca presa na direita, aparava o golpe que vibrava como último arranco a sua vítima.

Liberato, de feito, não pôde mais resistir. Tinha o corpo crivado de facadas. Cambaleou e caiu.

Joaquim, atirando se ao desgraçado, embebeu lhe no peito, sem hesitar, antes com a firmeza de cínico sicário, a folha de sua faca, que lhe atravessou o coração.

— Por este guarida fico eu — disse. — Não há de vir mais perturbar o nosso sossego.

Os cadáveres dos assaltantes foram examinados entre risos, insultos e galhofas ímpias, à luz dos fachos sinistros. Completou se por este modo a tragédia.

CAPÍTULO VII

A vitória, não obstante o lugar e o número que deram superioridade aos fortificados, custou lhes consideráveis danos. Com outra investida da mesma força que a primeira, ou ainda menor, o couto arriscava se a ser dissolvido. Os malfeitores não eram muito numerosos e qualquer perda, por pequena que fosse, os expunha a desastres certos e quiçá fatais. Além disso, achavam se divididos por diferentes pontos donde protegiam as correrias empreendidas pelos mais destemidos. A organização protetiva era tal, que o mameluco e o filho, dentre todos os mais temerários e valorosos, percorriam, não já somente a província donde eram naturais, mas Paraíba e Rio Grande do Norte em todas as direções sem maior perigo, porque quando as justiças os perseguiam, eles achavam sempre perto de si um refúgio amigo onde se acolhiam, e se aí eram buscados, como muitas vezes aconteceu, resistiam, ajudados por seus iguais, com tanta energia e denodo que sempre a vitória ficava de seu lado.

Desta vez porém não lhes fora muito favorável o lance.

O Cabeleira, cuja bravura estava acima de todo o encarecimento, e seu pai, que a nenhum cedia o lugar na crueldade, tinham ficado cobertos de golpes, alguns deles mortais. Maracajá, cabra de más entranhas e por isso de créditos colossais entre eles, ficara com uma mão horrivelmente destruída, e o ombro esquerdo mutilado. Ventania, outro matador de fama, apresentava no rosto e peito feridas extensas e profundas. Jurema, Jacarandá, Gavião e dois negros fugidos tinham morrido nas pontas das facas dos assaltantes.

A vista de tudo isso, tanto que considerou restabelecida a ordem na lôbrega estância, Joaquim reuniu o restante das suas forças, e lhes falou nestes termos:

— A luta foi feia, camaradas, e devemos dar um exemplo de estrondo para que ela não venha a repetir se tão cedo. É: certo que dos cabras que se atreveram a vir bater nos, não voltou um só que fosse contar a sua derrota, mas o abalo que padecemos foi grande, e, se a justiça vier por aí nestes dias, correremos grande perigo, só não se nos ausentarmos. Entendo que devemos obrar um feito que a todos dê que falar, que aterre a população e o capitão mor, que faça crer que nunca estivemos tão fortes nem mais dispostos a sustentar o nosso posto.

— Estou pronto para ir pôr fogo agora mesmo na povoação — disse Manuel Corisco, calceta evadido da cadeia do Recife por ocasião do segundo arrombamento praticado nos últimos tempos da administração do governador Henrique Luís.

Este sentenciado tinha tomado parte, aos dezesseis anos, no levante dos soldados que se verificou quando governava Pernambuco d. Manuel Rolim de Moura. Do dito levante existe ainda a viva lembrança na província, pelo grande saque a que procederam, não só na vila do Recife, mas também na rica e populosa cidade de Olinda, a pérola de Coelho. Os sessenta e seis anos, que contava, ainda lhe permitiam forças e animo para atentar contra os bens e a vida com tanto maior firmeza quanto era fragueiro no crime por uma prática de longos anos.

— Em vez do incêndio, o saque — acudiu Miguel Mulatinho.

— Para tanto não temos forças, mas se o querem, encontram me pronto, como sempre—observou Manuel Corisco.

(continua...)

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