Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
E se não foi a credulidade que as determinou, ai meu Deus! – a conseqüência seria mil vezes pior.
Basta.
A minha excursão pelos domínios do passado chegou ao seu termo.
Voltarei em breve a continuar o estudo do palácio imperial, considerando-o em uma época muito mais recente.
V
Na manhã do dia 26 de abril de 1821, quando o príncipe regente do Brasil acabava de receber as últimas despedidas de seu augusto pai, e a nau D. João VI, abrindo suas brancas asas, começava a cortar as águas do plácido janeiro para levar a Lisboa a família real, dois velhos criados do rei conversavam, olhando para a cidade que também deixavam.
– Pobre cidade: – dizia um deles. – Como vai ficar agora,achando-se privada do rei e da corte?
– E o palácio! – acrescentava o outro. – Que salas desertas.Que tristezas e que saudades!
– E o futuro ainda pior há de ser para ele, porque, por ora,ainda lhe resta o príncipe D. Pedro com um arremedo da corte do rei; mas, em breve, também o príncipe tornará à mãe pátria que não pode querer que o herdeiro do trono ande aqui exaltando as cabeças dos brasileiros. E em tal caso, a que ficará reduzido o tal palácio?
– A casa dos vice-reis como dantes – tornou o outro.
– O que já não é pouco – observou o primeiro criado quefalara.
– Não pensa o rei assim – disse, sorrindo, um terceiro criadoque se aproximara.
Os dois voltaram-se e tomaram diante daquele que viera intrometer-se em sua conversação uma atitude respeitosa, pois que tinham reconhecido um dos cortesãos mais queridos e da maior privança do Sr. D. João VI.
– Como pensa então Sua Majestade? – perguntou um dosdois criados, já de antemão resolvido a aplaudir o juízo do soberano.
– Ainda há pouco o rei, abraçando ternamente o príncipe,despediu-se dele, dizendo-lhe algumas palavras em que lhe deixou uma profecia e um conselho; e nem uma nem outro podem alentar muito as esperanças dos portugueses.
– Mas o rei é o melhor dos portugueses.
E nem por isso o seu patriotismo o torna cego ao futuro, em cujo livro sabe ler como um profundo político.
Os dois cortesãos curvaram-se em sinal de aprovação.
O outro continuou.
– O rei disse ao príncipe estas palavras, que eu recolhi e decorei: “Pedro, o Brasil brevemente se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre a tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela.”
Os corações dos dois velhos criados do rei revoltaram-se contra o conselho, e ainda mais contra a profecia; mas seus lábios de cortesãos tiveram sempre um sorriso para acolher as palavras do soberano. O contágio do liberalismo português ainda não tinha podido romper o cordão sanitário da corte.
Enfim, era preciso dizer alguma coisa que servisse para melhor esconder o descontentamento íntimo.
– E... visto isso... o palácio...
– O palácio continuará a ser palácio real, e não será impossível que se torne imperial.
A conversação parou aí; estava tomando um caráter tão triste para aqueles fiéis cortesãos e leais portugueses, que em verdade não podia continuar.
Em 1822, um ano e cinco meses depois, a profecia do rei achava-se realizada e o seu conselho nobremente seguido.
O Brasil era um império independente e livre.
A nova organização política do país deu imediatamente lugar a uma modificação no palácio, que passara a ser imperial; porque, havendo necessidade de se preparar um edifício em que celebrasse as suas sessões a Constituinte brasileira, escolheu-se para esse fim a antiga casa da câmara municipal e cadeia, e conseqüentemente destruiu-se o passadiço que desde 1808 a ligara ao palácio.
Coisas deste mundo! Uns trinta anos antes dessa época brilhante e gloriosa, tinham estado presos na cadeia, que era naquele mesmo edifício, alguns dos comprometidos na famosa conjuração de Tiradentes, os criminosos de lesa-majestade que haviam tramado em Minas Gerais o primeiro movimento revolucionário, que devia realizar a independência pelo menos de uma parte do Brasil; e passados trinta anos, em 1822, duas das vítimas, dois dos condenados, o padre Manuel Rodrigues da Costa e José de Resende Costa Filho, vinham entrar nesse mesmo edifício para tomar parte nos trabalhos da assembléia constituinte do Brasil independente, como deputados pela província de Minas Gerais!
A cadeia velha transformara-se em templo das leis; as vítimas e os condenados de 1792 eram triunfadores e heróis em 1823.
Eu faço idéia da impressão que sentiriam e das recordações que teriam o padre Rodrigues da Costa e José de Resende ao verem-se pela primeira vez, em 1823, debaixo daquele mesmo teto que tão lúgubre lhes parecera em 1792.
Não quero, porém, perder de vista o assunto que ainda neste
passeio me deve ocupar.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.