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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

encobrio cuidadoso do Dr. Ambrosio e de Claudiano, que o Dr. Ambrosio occultou cora o maior empenho de Antônio e de Claudiano, e que Claudiano não diria a Antônio e ao Dr. Ambrosio, nem mesmo a preço de vinte cartadas felizes e consecutivas no lansquenet.

Ainda bem que a velha D. Violante não foi ao Club Fluminense n'aquella noite.

Parece que a moça preparava uma batalha decisiva contra a velha.

Quaes os seus meios de acção ?... o poder dos seus encantos triumpharia em fim da portentosa influencia dos trezentos contos de réis de D. Violante?... Não é licito acredital-o.

Como então vai Clemência conseguindo operar tão notavel transformação no espirito dos tres calculistas ?...

É um mysterio.

Dizem que as moças não sabem guardar segredo: sabem, sabem : quando lhes faz conta, sabem.

Moças !... Pensão alguns que essas borboletas que adejão ligeiras e inconstantes, são incapazes de forjar planos intrincados e difficeis, e mais incapazes ainda de preparar uma vingança calculada e habil. Engano : quando se trata de amor, ellas todas são mais astutas do que o mais adextrado diplomata, e feridas em sua vaidade sabemvingar-se dextramente, e ás vezes sem piedade. São rosas, sim ; mas por ventura as rosas não têm espinhos ? ..

O dia da segunda-feira chegou, e Clemência

não se fez esperar por Violante.

— A que horas devem chegar os seus tres

pretendentes, perguntou a moça.

— Pois já te não lembras ?... ás duas horas,

minha sobrinha esquecida.

— Ainda bem : temos tres horas diante de nós.

Então conta com elles minha tia ?

— Não ha duvida possível, visto que não me tornei pobre de rica que era. Conto com elles e até lhes mandei preparar um bom jantar.

— Deus queira que não jantemos sós, minha tia

— Incredula !...

A despeito das suas esperanças, Clemência estava um pouco receiosa ; Violante porém confiava na sua boa fortuna.

— Já tomou a sua resolução, minha tia ?...

— Caso-me decididamente, respondeu Violante, rindo.

— E qual dos tres prefere ?...

— Na questão de preferencia é que está o meu unico embaraço : creio que o melhor dos tres é o doutor...

Entrou n'esse momento um escravo na sala e entregou umac arta a Violante

— Vê o que contem esta carta, disse a velha á sobrinha. Clemência abrio e leu sem hesitar :

« Minha senhora. — Com o mais profundo pezar e cedendo a circumstancias com que não contava, sou obrigado a desistir das minhas pretenções á mão de V. Ex. Não podendo ser o esposo, será sempre o mais obediente escravo de V. Ex.

— O Dr. Ambrosio.

— E esta! ..exclamou Violante, tomado a carta da mão de Clemência e lendo-a quasi com incredulidade.

— É um de menos, minha tia : mas ainda lhe ficão dous.

— Sim, e preferirei o negociante que me há de augmentar a fortuna.

O escravo entrou outra vez com uma segunda carta.

Violante não deu mais a carta á sobrinha: abrio-a e leu : era do Sr. Antônio, e dizia pouco mais ou menos o mesmo que dissera na sua o Dr. Ambrosio.

A velha não pronunciou uma unica palavra : poz-se a arranjar a touca eos óculos.

— Lá se foi o segundo ! mas ainda bem que ainda lhe resta um ; observou Clemência.

— Sim... o peior de todos... o jogador que esbanjaria a minha fortuna em poucos mezes :

está visto que esse não me voltará as costas... e...

E o escravo entrou na sala pela terceira vez, trazendo uma terceira carta.

— Lê... lê, Clemência, porque eu não acreditaria nos meus oculos.

Clemência abrio a carta e leu : tal e qual como as duas primeiras, essa continha uma despedida formal e as desculpas de Claudiano.

— Todos tres!... exclamou a velha ; todos tres!... mas é inacreditavel!...

— Minha tia, a verdade não é sempre verosimil.

— Porém todos tres !... ah ! sim... adivinho

— Adivinha o que ?...

— N'estes ultimos tres dias os calculistas descobrirão uma velha mais rica do que eu sou.

Clemência desatou a rir.

— De que ris ?...

— Da sua derrota, minha tia.

— Tu porém não venceste ..

— Quem sabe ?...

— Falia.

— Ainda é cedo: o seu dia foi hoje, segundafeira : o meu é amanhã, terça-feira.

— Mas então que faremos hoje ?. .

— Jantaremos sós, minha tia.

Não é preciso dizer que Violante foi bem cedo apresentar-se no dia seguinte na casa de seu irmão, que aliás a deixou só com Clemência sahindo a cumprir o seu dever de empregado publico.

A velha nem um só instante nutrira a idéa de casar-se : pretendeu dar uma lição á sobrinha; agora porém estava realmente curiosa para ter a explicação da sua derrota.

Apenas se achou a sós com a sobrinha, apertou-a para que lhe fizesse comprehender a deserção inesperada dos tres calculistas.

— Ao meio-dia saberá tudo, respondeu Clemência.

— Mas até o meio-dia que faremos ?...

— Vossa mercê já leu os jornaes de hoje ?

(continua...)

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