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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

- Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como se faz com as crianças, para não terem medo do calhambola. 

- Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.

  - Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia estar bem longe. 

  Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno a fim de não redobrar o susto da moça. Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente calar-se. 

- Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora. 

Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele tão natural que ocorreu a Miguel. 

- Talvez tivesse esquecido alguma coisa. 

- Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas. 

- Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes. 

- Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel. 

- Berta! chamou Linda. 

- Aqui não está. Já corri tudo. 

- Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar; já é tarde. 

- Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda. 

- Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel. 

  Os dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas, mas não viram sombra de Berta. 

  Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas desta vez gania a voz com tal ímpeto e frenesi que estrangulava-se. 

- Til! Til! Til... 

  Na roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no manejo da enxada batiam a cadência de um canto monótono, com que amenizavam o trabalho: 


 Do pique daquele morro 

 Vem descendo um cavaleiro    

Oh! Gentes, pois não verão  

Este sapo num sendeiro? 

 

  Adubavam o mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um riso gutural: 

- Pxu! Pxu! 

  Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos, que muitas vezes encerram epigramas e alusões. Bem desconfiavam, pois, o feitor de que a tal cantiga bolia com ele, e o sapo não era outro senão um certo sujeito bojudo e roliço, de seu íntimo conhecimento; mas fingia-se despercebido da coisa.  

Quando passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça de eito, os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mão esquerda, e com a direita pediram a benção. 

 

XIV 

A vespa 

 

  Onde sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia? 

  Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas. 

  No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar. 

(continua...)

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