Por José de Alencar (1872)
As senhoras ficaram na sala, vendo álbuns e figurinos, conversando sobre modas, ou tocando e cantando. Alguns cavalheiros resistiam ao perfume do havana para gozarem por mais tempo da amável companhia das moças. Outros, para voltarem mais cedo, saboreavam já o seu charuto, passeando no jardim, defronte das janelas, por onde às vezes intervinham na conversação.
Na varanda os capitalistas e negociantes discutiam sobre o estado da praça; apreciavam as transações mais importantes da semana finda; faziam conjeturas sobre a alta e baixa do câmbio, caindo por fim no assunto inesgotável de todas as conversas daquele tempo, por ser a preocupação constante de todos os espíritos; a conclusão da guerra do Paraguai, que o intrépido Câmara acaba de selar com a última vitória.
Além, desdobravam-se as mesas de jogo à espera dos apaixonados do solo e voltarete; mais longe, se ajustavam passeios a pé e a cavalo, ou visitas aos hóspedes do amável Sr. Bennett.
Em toda essa reunião de pessoas havia dois pontos para os quais convergia a atenção; eram o Soares e a filha. Os espíritos positivos, os homens de negócio, os soldados da cruzada fanática do ouro, que é a grande preocupação do século atual, esses infatigáveis obreiros do dinheiro contemplavam o capitalista como um herói ou como um gênio, como o César ou o Napoleão da praça. O comendador representava a seus olhos o símbolo ou mito da riqueza, como Hércules o era da força.
A rapidez com que Soares, de simples dono de um armarinho, se elevara a milionário por uma série de operações lícitas, mas combinadas com tino superior e executadas com incrível arrojo; o milagre dessa riqueza colossal honestamente acumulada em cerca de vinte anos, enchia de admiração não só os neófitos no culto do bezerro de ouro, como os mesmos negociantes já possuidores de algumas centenas de contos.
As vistas fitavam-se com afinco no rosto franco e prazenteiro do capitalista, que se lhes afigurava o dinheiro encarnado, o milhão feito homem. Estudavam sua fisionomia, aprendiam seus menores gestos, decoravam suas palavras ainda banais. O Soares tinha em si o grande segredo de ganhar dinheiro; talvez o precioso condão da riqueza estivesse em alguma particularidade de sua pessoa e fosse possível a um homem hábil surpreendê-lo.
Esforçavam-se pois em imitar aquele tipo de milionário improvisado. Um tinha notado que ele trazia sapatões de bico espalmado, feitos em uma tenda da travessa do Carmo. Pensando que o segredo podia estar nisso, recorreu ao freguês antigo do capitalista para lhe fazer calçado em tudo igual. Outro observara que o Soares trazia uma pequena caixa oval cheia de rapé, não para tomar, mas simplesmente para cheirar.
Havia gente que não só copiava o milionário no vestuário e nos hábitos, como até na comida. Um chegou a convencer-se que o feijão-preto e o lombinho de porco tinham virtude aurífera; e apontava a província de Minas como a prova do fenômeno.
De seu lado, Guida era naquele céu o astro da beleza, de que as outras moças não passavam de satélites. Em torno dela giravam os cavalheiros elegantes, todos aqueles que não tinham resumido a sua existência no balcão e ainda se ocupavam de música, de arte e de sentimento. Para esses o dinheiro não é um fim, como para os primeiros, os cruzados do século; é meio apenas de obter o gozo; é um engaste para o prazer. Assim uma mulher bonita na pobreza parece uma crisólita embutida em estanho; na riqueza, torna-se uma pérola cercada de diamantes.
Os olhares desta parte da sociedade acompanhavam os movimentos de Guida com admiração e insistência igual à dos adoradores do dinheiro encarnado na pessoa de Soares. Ela também representava o mito do século, o milhão. Se o pai figurava o milhão feito homem, ela era o milhão feito anjo; o ouro convertido em luz, a libra esterlina transformada em estrela, o bilhete do banco adquirindo de repente a graça diáfana da asa de borboleta.
Os etimologistas, gente que profetiza o passado e inventa o esquecido, dizem que ouro, palavra de origem egípcia, significou primitivamente a luz, o sol, passando a designar o metal precioso por analogia. Se assim foi, como me parece racional, Guida personificava o ouro segundo a delicada comparação da poesia oriental; era o sol esplêndido da fortuna; era a réstia de luz coalhada em barra, o prisma bancário, o raio amoedado.
Entre todos os cavalheiros que se prostravam humildes ante o ídolo, distinguiam-se três, ou pela assiduidade na adoração, ou pela esperança que afagavam. Eram o Guimarães, o Bastos e o Dr. Nogueira: pessoas que sem dúvida merecem alguma notícia, pois um deles, segundo se dizia geralmente, teria de ser o feliz, o querido da fortuna, o marido da mais rica herança e da mais bonita moça do Rio de Janeiro.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.