Por José de Alencar (1873)
Desde então se estabeleceu por aquele novo correio uma correspondência inocente e pitoresca; pois de uma parte escreviam as pinturas e da outra as flores.
É preciso advertir que apesar da esperteza do Ivo, não passavam de todo desapercebidas do Sabino estas artes.
XVI
PERIGO DE METER UMA FRANGA NO POLEIRO, QUANDO NÃO
SE TEM O COSTUME DE LIDAR COM A CRIAÇÃO
Cedo veio uma manhã, fatal manhã, que dissipou os fagueiros sonhos do nosso Ivo, e anuviou-lhe os dias prazenteiros, ali fruídos naquele soturno aposento, que lhe fora um seio, de Abraão.
E todavia raiava o sol brilhante, e o céu ria-se de tão azul e transparente. Os passarinhos chilreavam entre os ramos das árvores, meneadas pela fresca brisa do mar, que já começava a soprar; e o escrevente, de coração farto e espírito folgazão, esforçava-se com ardor e prazer no trabalho, para adiantar o cumprimento da obrigação, de modo a distrair uns momentos, os mais felizes da sua vida, quando pingasse meio-dia da torre de São Bento.
Ainda faltava cerca de meia hora; mas a galinha, ou porque esse dia se expedisse nas suas correrias, ou porque se fosse cada vez mais amorando ao lugar, apresentou-se com a ninhada. Recebeu o rapaz com o costumado alvoroto, que logo cedeu a grande desconsolo; pois desta vez não traziam os pintainhos a prenda a que se acostumara o nosso namorado.
Já se sabe que não ganharam as migas da broa; além de parecer-lhe justo castigar a pouca diligência do mensageiro que vinha debalde, entendia o rapaz que era o modo de escorraçar dali a ninhada, e fazer que a menina reparasse o seu esquecimento, se não era antes alguma pirracinha.
Piavam os pintos e cacarejava a galinha, a espicaçarem-lhe as pernas, e ele a enxotá-las com a ponta do pé e a régua; donde tal ruído se levantou, que já era um escândalo naquele soturno asilo da murmuração forense. Felizmente o Sebastião Ferreira, quando se embrenhava em uma alfarrábio, não dava pelo que ia cá fora.
Nessa conjuntura soou pelo cartório um “zute”, ao qual levantaram os escreventes a cabeça de supetão para fitarem o vulto do tabelião. Este segurando na mão esquerda um auto, com a direita erguida e espetado para o Ivo o indicador, três vezes fechou em croque e abriu a formidável falange.
De pronto acudiu o rapaz ao chamado, acercando-se da mesa grande.
— Um edital por este teor e forma! disse o tabelião com o laconismo do costume.
Mas a galinha e sua ninhada não deixavam de atormentar o Ivo à gana das migas de broa; e faziam tal matinada e cacarejo por baixo da mesa e entre as pernas do Sebastião Ferreira, que deu êle enfim pelo atrevimento dessa profanação de seu cartório transformado em terreiro de criação. — Enxote-me esta cambada, moço! gritou o velho escriba.
Fê-lo o Ivo, mas debalde, que a ninhada lhe voltava no encalço:
— É teimar em vão, já agora tomou esta manha.
— Feche a porta que já não tornam.
— E o buraco? retorquiu o Ivo apontando para o rombo. O remédio é prendê-la no galinheiro.
— Pois prenda-a, e não me atormentem.
Isto, disse o Sebastião ao Ivo e à galinha conjuntamente.
Lesto, como o galgo que aventou a caça, tangeu o rapaz diante de si a ninhada pelo corredor a fora em busca do quintal, com o ouvido alerta e olhar à espreita na esperança de lobrigar de longe a filha do tabelião. Mas não viu sombra da linda imagem que trazia n’alma.
Encaminhou-se pois ao galinheiro, bem desconsolado de sua vida; e lá deixou, com a ninhada, a esperança de receber naquele dia a lembrança do costume. Ao voltar tropicou com a fraqueza e tremor que lhe deu das pernas.
E não era para menos. Encontrara-se rosto a rosto com a Marta, que ali estava diante dele, palpitante, como um passarinho sob o olhar do gavião, e fechada em seu enleio, como a flor que abrocha em botão, com o temporal.
Tinha a menina cingida ao seio pelo braço esquerdo uma franga de penas mui alvas, que a brancura de sua tez escurecia. Andava triste aquela diva do poleiro, talvez pelo seu estado interessante, pois achava-se no primeiro choco. Daí vinham os desvelos de Marta, que depois de a tratar, ia levá-la ao galinheiro.
Com o susto que sentiu a rapariga dando com o Ivo em frente a si, escorregou-lhe do braço a franguinha que, passado o primeiro instante de atordoamento, disparou a correr. Após ela partiu Marta, e no encalço de ambos Ivo, que se não fez esperar.
(continua...)
ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.