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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Meneses – Desgraçados dos homens de bem, Araújo, se o mundo não fosse assim; se o vício não tivesse em si esse princípio de destruição que é o seu próprio corretivo. Estimo o Sr. Pinheiro desde que soube a maneira digna com que aceitou o seu infortúnio; mas esse infortúnio proveio de sua paixão louca por Carolina; ele não podia, não devia achar nela um sentimento de gratidão. É preciso que o despreze para o punir; é preciso que lhe negue para uma boa ação o dinheiro com que ele acabou de perdê-la. A avareza (designa Carolina) corrige a prodigalidade (designa Pinheiro)

Carolina – Avareza! Não admito.

Araújo – E que nome tem isto?

Carolina – Chame-lhe ingratidão, chame-lhe o que quiser, mas avareza, não! Faço tanto caso do dinheiro como da moral que trazem certos sujeitos na algibeira, e da qual só usam quando lhes convém, como de um charuto, de um lenço, ou de uma caixa de rapé. E a prova é que essa jóia, dá-la-ia de esmola a qualquer miserável, se não estivesse convencida que ele amanhã nem me tiraria o chapéu!

Pinheiro – Quando eu passo à noite pela Travessa de São Francisco de Paula, ouço vozes humildes que suplicam, e que já falaram mais alto que a sua, Carolina.

Carolina – Que tem isto? Se algum dia ouvir a minha, não a escute, como eu hoje não quero escutar a sua.

Pinheiro – Nem todos possuem o seu coração.

Carolina – Isso é verdade!

Araújo – E o seu amor...

CENA V

(Carolina, Meneses, Helena e Araújo)

Carolina – Amor?...

Araújo – Amor ao dinheiro.

Carolina – Mas seriamente, os senhores não me compreendem. Nem sabem que para uma mulher não há ouro que valha o prazer de humilhar um homem.

Meneses – Tanto ódio nos tens?

Carolina – Muito!...

Araújo – Contudo não posso crer que aquelas que durante toda a sua existência correm atrás do dinheiro, façam dele tão pouco caso.

Carolina – Pois creia; todas essas minhas jóias, todo esse luxo e riqueza, que me fascinaram, e que hoje possuo, não os estimo senão por uma razão.

Araújo – Qual?

Carolina – Talvez possam realizar um sonho da minha vida.

Araújo – E que sonho é esse?

Carolina – Não digo.

Araújo – Por quê?

Carolina – Vai zombar de mim.

Araújo – Não tenha receio.

Meneses – Para zombar começaríamos tarde!

Carolina – E que zombem, não faz mal. Toda a criatura boa tem o seu fraco; assim toda a mulher, por mais desgraçada que seja, conserva sempre um cantinho puro onde se esconde a sua alma.

Meneses – Estás bem certa que tens uma alma, Carolina?

Carolina – Talvez me engane; é possível. Mas eu guardo-a com tanto cuidado!

Araújo – Aonde, em alguma caixinha?

Carolina – Justamente! Numa caixinha de charão... Vai ver, Helena; está no meu guarda-vestidos. (Dá-lhe as chaves)

Meneses – E debaixo de chave!... És prudente!

Carolina – No meio de todas as minhas extravagâncias, de todos os meus prazeres, eu sentia uma pequena parte de mim mesma que nunca ficava satisfeita; chamei a isto minha alma, tive pena dela, fechei-a dentro dessa caixa, e disse-lhe que esperasse até um dia em que seria feliz. (Helena volta com a caixa)

Araújo – Ah! E esta?

Meneses – E de que maneira pretendes dar-lhe a felicidade?

Carolina – Não sei; mas como o dinheiro é tudo, fiz uma coisa; dividi o que eu tinha e o que viesse a ter com a minha alma. Voltava de uma ceia onde tinha me divertido muito; metia dentro desta caixa todo o dinheiro que possuía, para que o espírito tivesse um igual divertimento. As minhas jóias, depois de usadas uma vez, se escondiam aqui dentro; enfim a cada prazer que eu gozava, correspondia uma esperança que guardava.

Meneses (apontando para a caixa) – E quanto valerá hoje a tua alma?

Carolina – Não sei; o que entra aqui dentro é sagrado, não lhe toco nem lhe olho; tenho medo da tentação. Só abro esta caixa à noite, quando me deito.

Meneses – Pois deixa dar-te um conselho: põe a tua alma a juro no banco, e esquece-te dela. Há de servir-te na velhice. Ou então diverte-te!...

Carolina – Não; vou dá-la.

Araújo – A quem?

Carolina – A um homem que não me ama; e por causa do qual jurei que havia de ver todos os homens a meus pés, para vingar-me neles do desprezo de um. E sabem se cumpri meu juramento!...

(continua...)

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