Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
É que amanhã o pobre terá em desprezo a lei, e há de desconfiar da sociedade que governa; e depois de amanhã... e no futuro, num dia enfim que felizmente bem longe está ainda, o povo pobre que é muito mais numeroso do que o dos povo rico, perguntará àqueles que estão de cima – se ainda não é tempo de minorar-se o peso de sua cruz, se o seu calvário não se acaba de subir nunca.
É que hoje o pobre indiferente e sofredor, carrega o seu peso silencioso como o camelo, e um dia mais tarde, – ai de nós se ele chegar! – levantará a cabeça, orgulhoso como o leão, e terrível como o tigre.
Não se diga que o mundo é hoje como fora ontem, e como será amanhã; não! No mundo tudo sobe e desce gradualmente, e neste caso é preciso convir que a perversão e a imoralidade tem ido subindo de grau em grau. Deus permita que também a paciência dos que sofrem não tenha ido igualmente de grau em grau subindo; porque então, quando o termômetro terrível marcar o último e mais alto grau de perversão, marcará também o último e mais alto de paciência.
E essa repulsão, esse desvalimento, o homem pobre encontra por toda a parte. No corpo abstrato que representa a grande família, no alto corpo social recebe ele esses golpes terríveis e mortais, que ferem seus direitos naturais e civis, que destroem a igualdade do gênero humano, que dividem os filhos de Deus em dois bandos: – protegidos e repelidos.
E na pequena sociedade das famílias dos ricos, o homem pobre se atira a um canto; vê rir, vê brincar, vê gozar, vê ser feliz; e quase nunca ri, goza ou brinca, e jamais é feliz. Algumas vezes desprezado, quase sempre involuntariamente esquecido, ele fica ao canto com a convicção de sua miséria. Na pequena sociedade de que falamos, ele sofre pequenos mas repetidos golpes. Pequenos, mas que lhe doem muito, porque lhe vão ferir esses pontos mais dolorosos da sensibilidade.
E essa convicção da própria miséria, e de seu imenso desvalimento, tem tão grande influência no homem pobre, que às vezes mesmo em um círculo excepcional, mesmo na sociedade de alguns poucos que abominam a máxima diabólica, que sendo ricos não sabem esquecer involuntariamente o pobre, este não se anima a tomar para si um papel igual ao dos mais que ali estão, porque embora excepcional seja esse círculo, o pobre tem na alma a convicção de sua miséria e de seu desvalimento, e por isso se entorpece ou receia... acanha-se.
Era esta última a posição de Cândido nos serões do “Céu cor-de-rosa”.
Que importavam as demonstrações de amizade de Anacleto, as atenções e cuidados de Mariana e a doçura angélica de Celina?... que importava a atmosfera pura e leve que no “Céu cor-de-rosa” ele respira, se dentro de seu coração lhe estava pesando a profunda convicção da miséria do pobre?... portanto, ele se deixava ficar escondido em um canto da sala... do seu lugar... no lugar que geralmente na casa daquele que muito mais tem, se deixa ficar o que muito menos tem.
Mas aí mesmo, aí nesse retiro vinha esmagá-lo o peso do seu infortúnio. Daí ele via Celina cercada e lisonjeada por mancebos que podiam sorrir para ela, ouvia lhe dizerem baixinho o elogio de sua beleza, e depois irem cantar com ela duetos apaixonados; mancebos enfim, que podiam merecê-la; e ele via esses sorrisos, ouvia o murmúrio dessas palavras ditas de súbito... e não podia fazer outro tanto, porque, quem sabe se por única resposta a seus cumprimentos, Celina lhe perguntaria: – Quem és tu?...
E suponhamos que, graças à sua virtude e urbanidade, nada lhe dissesse Celina, não poderia essa menina perguntar dentro de si mesma: – Quem é ele?...
E não basta simples suposição para fechar a boca do homem pobre e desconhecido, que tem no coração um pouco desse orgulho sagrado que todo o homem de honra se ufana de ter?...
Portanto, os serões do “Céu cor-de-rosa” não ofereciam a Cândido o encanto imenso que em outras circunstâncias lhe ofereceriam. A razão disso estava nele mesmo.
Mas, enfim, um pouco à força dos convites de Anacleto, e das instigações da velha Irias, e um pouco à força dos convites e das instigações de seu próprio coração, Cândido era um dos mais assíduos freqüentadores do “Céu cor-de-rosa”.
CAPÍTULO IX
UM SERÃO DO “CÉU COR-DE-ROSA”
A NOITE estava bela, a lua clara e brilhante e brisas suaves e frescas faziam esquecer a calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, que acabara de passar.
Um grupo de curiosos e amadores tinha-se formado defronte das janelas do “Céu cor-de-rosa” e aplaudia os cantos agradáveis que ali eram entoados.
Um velho guarda-portão estava sentado à porta do alpendre da casa feliz.
Jacó e Helena observavam de suas janelas o que se passava e o que se dizia.
Dentro do “Céu cor-de-rosa” reinava a felicidade e borbulhava o prazer. Cerca de trinta pessoas entre senhoras e homens, gozavam o serão daquela noite.
Mariana estava radiante porque defronte dela, e com os olhos embebidos em seu rosto, Henrique parecia crer-se ditoso.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.