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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

O rosto do plebeu pareceu anuviar-se; passado um momento, ele levantou a cabeça, e disse:

— Nobre Sr. D. Rui Vaz, o filho de Arabela não herdará de mim nem palácios, nem castelos, nem um colar de cavaleiro, porque plebeu nasci, e plebeu morrerei; mas juro, à face de Deus, que dia e noite trabalharei por ele, e para deixar-lhe uma herança que o livre da miséria e do infortúnio.

Depois, voltando-se para sua noiva, disse com voz grave e firme:

— Arabela! a Deus o juro!

No dia seguinte Arabela era à face dos altares a mulher de Gil Mendonça.

Alguns dias depois o nobre e leal cavaleiro Sr. D. Rui Vaz tinha desaparecido das terras de Portugal; era um jovem fidalgo que, aos vinte e cinco anos de idade, aborrecia o mundo...

Ao lado de Arabela, Gil Mendonça, senhor do seu coração, e certo da sua fidelidade, vivia feliz e sossegado; três anos se passaram, em que ele pedia ao céu um filho e, na esperança de vir a tê-lo, trabalhava com ardor indizível para preparar-lhe uma herança.

Ele nunca esquecia o seu juramento.

No fim de três anos Arabela concebeu, e Gil Mendonça, festejando com entusiasmo tal acontecimento, sentiu, todavia, com tristeza que se achava ainda tão pobre como dantes. E ainda trabalhou mais...

No fim de nove meses, Arabela deu à luz uma linda menina, a quem puseram o nome de

Isabel.

No dia que se seguiu ao do batizado, Gil Mendonça falou a sua mulher.

— Arabela, tu tens visto com que ardor eu trabalho e como mal nos paga a fortuna. Todos os dias me parece estar ouvindo as palavras daquele fidalgo que te amou: — que darás tu por herança ao filho de Arabela?... enfim, tu deste-me uma filha, eu lembro-me também, que por Deus te permiti dar-lhe uma herança; vejo que nada faço na minha terra, e vou partir.

— Partir para onde?...

— Vou correr o mundo, Arabela, e conseguirei sem dúvida uma herança para deixarmos a

Isabel.

A despeito das lágrimas e dos conselhos de Arabela, Gil Mendonça fez de sua roupa uma trouxa, tomou um bastão e o chapéu, e, recebendo a bênção de seus pais, beijou sua filha, abraçou ternamente a sua esposa, e partiu.

Gil Mendonça não sabia escrever, e Arabela não esperava notícias dele; contentou-se com chorar as suas saudades, consolando-se com o lindo anjinho que das suas entranhas recebera o nome do céu.

O tempo foi correndo; os dias e semanas foram passando, depois meses e anos, sem que chegasse notícia alguma de Gil Mendonça.

No entanto, ia crescendo Isabel; linda e engraçada como fora Arabela nessa feliz idade, sua mãe espelhava os antigos encantos infantis no rosto, e as suas virtudes no coração de Isabel.

Com toda a sublime ternura do amor maternal, Arabela perdeu primeiro as noites velando junto do berço querido, bebeu depois entusiasmada os sorrisos meigos e inocentes da filha da sua alma, escutou e decorou a sua primeira palavra, ensinou-lhe a repetir o nome de seu pai, dirigiu os seus primeiros passos, e, quando Isabel começou a falar, aprendeu logo de sua mãe a pedir a Deus o regresso de Gil Mendonça.

Ao amanhecer de todos os dias Arabela levava Isabel pela mão à porta da rua e, mostrando-lhe uma estrada, que fronteira ficava, dizia-lhe:

— Foi por ali, Isabel, que por amor do teu futuro partiu teu pai; é por ali que ele deverá voltar; todas as manhãs viremos esperar por ele, todas as tardes também; no entanto, Isabel, continua ser a boa menina, para que ele te ache bonita, e te ame como eu.

E depois Arabela voltava o rosto para esconder as lágrimas de Isabel, que poderia chorar também, e afligir assim o seu coração maternal. Ainda se passou muito tempo sem que murchasse na alma de Arabela a esperança de ver chegar seu marido, e sem que este tornasse. Finalmente chegou o dia do natalício de Isabel.

Tinham-se passado nove anos depois que Gil Mendonça partiu em procura de melhor fortuna.

Ao amanhecer, Arabela, como costumava, levou Isabel pela mão até à porta, e disse: — Isabel, fazes hoje nove anos; há quase outro tanto que teu pai, por amor do teu futuro, nos deixou, partindo por ali... e é por ali que ele deverá voltar; esperemos...

O dia se passou como tantos outros, e, ao quebrar da tarde, Arabela, que se sentia abatida e aflita, sem, contudo, adivinhar a causa do que sofria, recolheu-se ao seu quarto, ficou só, chorando em segredo as suas saudades.

Isabel foi, segundo costumava fazer com sua mãe, sentar-se à porta da casa e, fitando os olhos na estrada fronteira, como não tivesse ao lado sua mãe para repetir-lhe as palavras que sempre lhe ouvia, repetiu-as ela mesma:

— Foi por ali que, por amor do meu futuro, partiu meu pai, e é por ali que ele deverá voltar: continuarei a ser boa menina, para que ele me ache bonita e me ame como minha mãe. Então ela viu vir chegando em direção à sua casa um velho peregrino, que parou a dois passos diante dela.

(continua...)

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