Por Camilo Castelo Branco (1869)
Com este sucesso coincidiu a morte de D. Beatriz de Noronha. Contaram as criadas que o fantasma de José Maria, auxiliado por incômodos de bexiga, a matara, penetrando-a dum remorso dilacerante. E posto que a crítica e a medicina presumam que D. Beatriz haja sucumbido a uma cistite, ou qualquer outra moléstia mais ou menos grega, é certo que a velha, para lograr o espectro do merceeiro, deixou em testamento 960$000 réis para missas por sua alma de esmola de 240. Quatro mil missas! O diabo que se atreva a levar alma com tal recomendação, se é capaz!
Falecida Beatriz, solicitou Ângela novamente a sua saída. A prelada consultou Soror Cassilda, a qual respondeu que não tinha que ver com a saída, assim como não tivera com a entrada. Sempre discreta! Os frades desta senhora deviam ter sido sujeitos áticos bastantemente nos seus raciocínios. Esta madre era notável nas formas aforismáticas, e quase sempre rebatia as réplicas com argumento de dois bicos. Parece que, na convivência de varões doutos, a sutil religiosa medrava em espírito o que os mestres iam adelgaçando na parte que Xavier de Maistre denomina a outra.
Rita de Barrosas, escrevendo a D. Ângela, pedia-lhe que fosse estar com ela uma temporada à bela quinta que seu irmão acabava de comprar; e ajuntava que, sendo necessária licença, ela se encarregaria de a requerer e obter em Braga.
Ninguém impediu a saída da reclusa. As freiras cooperaram quase todas para que não se estorvasse à pobre senhora o intento de pedir perdão ao general.
Efetivamente, Ângela, apesar de desprezada do pai, insistia em tentar a reconciliação apresentando-se-lhe com as súplicas piedosas do costume. Se ela medisse o seu amor filial pelo que devia esperar de Simão de Noronha, poupar-se-ia a tentativas vãs. Em verdade, o desapego era recíproco. A ficção poderia espremer lágrimas dos olhos de Ângela aos pés do pai, que lhas desprezaria; se, todavia, ele pudesse sobreposse acariciá-la, os júbilos do perdão escassamente agitariam o coração da filha. Seriam, bem ensaiados, filha e pai de comédia, quando os artistas se compenetram dos seus papéis.
Um pensamento, nem esquisito, nem repreensível, avassalava o ânimo de Ângela: cogitava em ser rica para enriquecer Francisco da Costa e irmã. O amor já entrava quase esvaído neste cálculo. Figurava-se-lhe que tocaria o acume da fortuna se conseguisse pagar cem por um dos bens que perderam os dois irmãos, quebrado o esteio do lojista.
Ora, a riqueza donde lhe proviria a não ser do general, cuja abastança engrossara com a herança de D. Beatriz?
Rijo era, pois, o estímulo que a fazia transpor as balizas da dignidade. E longe de nós acoimar de aviltamento a humilhação da filha; se, no entanto, o sentir filial a não impulsa, e a cobiça, fingindo arrependimento, se deplora, o senhoril do ato é pouquíssimo exemplar. Tanto assim, que Ângela, despreocupada do desejo de enriquecer-se para remediar alheios infortúnios, certo se deixaria vencer da fome antes de ajoelhar a um homem distinto dos outros pelo nome insignificativo de pai.
Foi, pois, caminho de Ponte de Lima, apenas saiu do convento. Chegou de noite com Vitorina ao portão do palacete. Bateu, esperou largo tempo que lhe abrissem. Anunciou-se. Mandou-a entrar um antigo criado; conduziu-a a uma sala, com duas alcovas, dizendo-lhe:
― Vossa excelência tem ali uma cama naquela alcova, e a criada outra. Eu vou servir o chá.
― E meu pai não me consente que o veja hoje? – perguntou Ângela.
― Seu pai, minha senhora, foi para França há quinze dias consultar médicos, por que tem padecido muito nestes últimos meses. Eu já era criado em Gondar quando vossa excelência nasceu. A Sr.ª. Vitorina há de lembrar-se do João Pedro. Sou eu, é este velho que aqui está. Ora eu fiquei com o governo desta casa, que para isso fui chamado lá do Paço, e entendo que minha obrigação é receber a filha do meu amo, e dar parte para Paris que vossa excelência está aqui. Se o Sr. general reprovar o meu procedimento, e me despedir do seu serviço, já me não prega grande peça, que eu pouco hei de viver. Até já, minha senhora. Se a Sr.ª. Vitorina quisesse ajudar-me a preparar o chá, bom seria, para não haver grande demora; que eu despedi a cozinheira assim que o patrão saiu, e cá me arranjo e mais outro criado com duas brasas e um púcaro.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.