Por Lima Barreto (1922)
— No começo, com a proteção do pai. Ao fim do segundo ou terceiro caso que veio a público, o pai não lhe falou mais e nunca mais se interessou pela sua liberdade. Sucederam-se outros, e, graças à intervenção da mãe junto a um irmão, médico do Exército, ele pôde arranjar rábulas sem escrúpulos, que, pelos meios mais nojentos, conseguiram retirá-lo das grades da detenção. Caluniava as vítimas com justificações em que eram testemunhas Timbó, Arnaldo e outros tais. Contoume a Vicência — o senhor não a conhece, "Seu" Nascimento? — perguntou Alípio.
— Quem é? — perguntou por sua vez o taberneiro.
— É aquela crioula velha que vem aqui, às vezes, fazer compras, para a casa do Maior Carvalho. Ela foi empregada na casa do pai de Cassi muito tempo. Um dia — ela não sabe bem por quê — o pai expulsou-o de casa. A mãe mandou-o para a casa do irmão em Guaratiba. Lá, ele fez ou pretendeu fazer uma das suas, mas o tio não esteve pelos autos; despachou-o para a irmã. A muito custo, a mãe conseguiu que ficasse num porão dos fundos, que mal tem a altura dele, Nesse "socavão" é que ele mora e come. Nunca sobe nas dependências superiores da casa, com medo do pai. Se, por acaso, este tiver notícia dessa sua ousadia, põe-no definitivamente na rua.
— Que diz a isso, doutor Meneses? — chasqueou Nascimento.
— Não sei, porque pouco me preocupo com a vida dos outros — tergiversou Meneses.
— Não é da vida dos outros — fez impetuosamente Alípio — ; é com a vida de um pirata como Cassi, que não respeita família, nem amizades, nem a miséria, nem a pobreza, para fazer das suas porcarias. É por isso que eu...
"Seu" Nascimento interveio suasoriamente e pediu calma. Era um homem alto, claro, um tanto obeso, tipo do antigo agricultor patriarcal, das nossas velhas fazendas. Ele assim disse:
— Não é necessário indignar-se, Alípio, fique calmo. O monstro não tem mais protetores, como você já disse.
— Tem, "Seu" Nascimento — afirmou Alípio. — Ele é esperto, "é manata escovado".
— Quem é, Alípio? — perguntou Nascimento, indo servir de açúcar a um pequeno.
Os fregueses continuavam a chegar; em geral, eram crianças e mulheres. As suas compras eram pobres: dois tostões disso, quatrocentos réis daquilo — compras de gente pobre, em que raramente se via nelas incluído meio quilo de carne-seca ou um de feijão. Tudo não excedia a tostões. Mesmo atendendo aos fregueses, sozinho, pois os caixeiros tinham ido correr a clientela fixa do armazém, "Seu" Nascimento não perdia o fio da conversa, e ela continuava naturalmente.
Alípio, habituado a isso, não suspendeu a narração e deu a resposta pedida.
— O protetor dele, agora, é um tal Capitão Barcelos, chefe político na estação de***. Tem influência e foi por saber disso que Cassi aderiu a ele. Já nessa última eleição para uma vaga de intendente, ele funcionou com o seu rancho ao lado de Barcelos. Não houve desordens, porque não apareceu outro candidato; mas ele queria fazer uma para ganhar prestígio. Assim e aos poucos, vai ganhando a confiança de Barcelos, a ponto do Freitas, que é o subcabo deste, sentir-se magoado e preterido.
— Quem é esse Barcelos? — fez Nascimento.
— É um português, já com seus cinqüenta anos, bom, bom mesmo; mas, tendo ido para a detenção, pronunciado que estava devido a uns tiros que dera em um sujeito, por lhe ter insultado a mulher, produzindo no meliante ferimentos graves, isto há vinte anos, ganhou lá o gosto pela política e lá aprendeu as primeiras noções dessa difícil ciência. Foi na detenção que...
— Ué! — exclamou Nascimento.
— Também você, Alípio... — fez duvidoso Meneses.
Alípio continuou:
— Lá, ele encontrou um político daqui da Capital, que estava na chácara, a responder processo, como mandante de um assassínio. O homem aproximou-se de Barcelos, e puseram-se a conversar. Não estavam no cubículo; estavam na enfermaria, ou na sala livre, ou em outro compartimento especial. Barcelos narrou sua vida, que, apesar daquele transtorno, não corria
— Mas, "Seu" Alípio, o senhor acredita que haja gente tão malvada, como esse Cassi?
— Há, e não pouca. Sei de tudo que contei de fonte limpa. É a pura verdade.
O doutor Meneses tinha ficado aborrecido com o tom da conversa. Tinha ido à venda, procurar Leonardo Flores, para um negócio particular; e encontrara o Alípio a par das suas relações com Cassi e inteirado da vida deste. Diabo! Estaria se comprometendo? Havia já tomado quatro copitos de parati; mas, quando se despediu, tomou um grande. Caminhando pôsse a pensar;
— Que devia fazer?
Pegou diversas hipóteses e concluiu:
— Ir até o fim.
A coisa não oferecia nenhum perigo para ele...
Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se.
CAPÍTULO VI
(continua...)
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.