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#Contos#Literatura Brasileira

O Esqueleto

Por Aluísio Azevedo (1890)

O Satanás, à janela, soluçava, com o rosto escondido nas mãos. Mas, de repente, uma gritaria confusa soou lá fora. Um magote do povo aproximava-se entre aclamações: a alma brasileira andava na rua, exultando e cantando, na aurora da emancipação. E aos ouvidos do escultor chegou distintamente a aclamação popular:

- D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro!

- Paulo! meu Paulo! - gemia a pobre louca na sua agonia.

O Satanás foi ajoelhar-se aos pés do leito. Oh! era demais! era demais! o outro vencia, aclamado e forte, enquanto ela, a sua filha, morria!

- D. Pedro! D. Pedro! - gritava o povo mais perto.

- Paulo! meu Paulo! - ouviu-se a voz de Branca, ainda uma vez.

A voz saía-lhe agora difícil e fraca, soluçante, como um gemido, da boca que a hemoptise pintava a carmim, e que na alvura polar da sua face parecia a poética e misteriosa flor das neves da Lapônia.

- D. Pedro! D. Pedro!

Todo o corpo da moribunda estremeceu, inteiriçaram-se-lhe os braços, vidraram-se-lhe os olhos. Um último suspiro lhe saiu da boca:

- Paulo! - e ficou imóvel.

O Satanás atirou-se de bruços, com um grande grito de desespero. E o povo passava justamente sob as janelas do atelier: e a aclamação troou, violenta e vitoriosa, invadindo a sala:

- D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro!

O temperamento do Satanás reagiu logo contra a sua grande dor sagrada.

Morta... Que lhe restava fazer? renunciar a luta, fugir para longe, para muito longe da terra maldita onde sofrera tanto, e ir preparar nas trevas do seu exílio voluntário, a obra sinistra da vingança, fazê-la amadurecer longamente, até que soasse a hora oportuna para fazê-la rebentar aos pés do príncipe... Mas não quis partir sem levar a filha consigo. Não a levaria viva, mas modelada na pedra dura, que, nas suas alucinações ele procuraria aquecer e animar, a custa de beijos e de abraços.

E atirou-se desesperadamente ao trabalho. Todo o seu talento, estragado e consumido pelo ócio e pelas orgias, voltou como por encanto, ao apelo da dor suprema que lhe vergastava a alma. Ao toque dos seus dedos, o gesso dócil se submetia, obedecendo-lhe aos caprichos da inspiração.

Toda a noite e toda a manhã seguinte, o escultor trabalhou sem descanso. O atelier, abandonado e poeirento, encheu-se de alegria e de vida. O sopro do trabalho animava tudo aquilo; e quando, de madrugada, o sol entrou vitoriosamente pelas janelas, vindo encontrar o artista embebido na sua obra piedosa, as estátuas pareciam sorrir...

Pouco a pouco, da massa informe do gesso, Branca saia, ressuscitada pelo amor do artista. Cercaram-lhe a fronte as ondas do cabelo, rasgaram-se-lhe os olhos, arqueou-se-lhe a boca dum sorriso inocente, empinou-se-lhe o colo virginal.

E ela aparecia assim aos olhos do escultor e ao coração do pai, tão pura e tão bela, como naqueles tempos felizes em que o alcoviteiro do príncipe ia purificar-se, ao seu lado, no pequeno santuário da rua do Conde...

Quando a estátua ficou pronta, o estatuário ajoelhou-se. Duas lágrimas rolaram pelas suas faces: e ele rezou, talvez pela primeira vez na vida.

Mas, acabada a oração, o Satanás transfigurou-se: era outra vez o mesmo espírito forte, o mesmo ousado e diabólico espírito da vingança e do ódio.

Levantou-se, olhou para o mar que se estendia infinito e calmo, ergueu o braço num juramento solene de nunca esquecer e nunca perdoar...

No outro dia, o Satanás fazia-se de vela, a bordo de um navio negreiro, para longe das terras do Brasil; e Branca ficava sob a lápide fria de uma sepultura do cemitério do Carmo, transformando a sua carne moça na seiva que mais tarde rebentaria em rosas na terra que ela purificara com a sua rápida passagem.

XIV

O ESQUELETO

Assim muito aclamado pelas massas populares que lhe iam agradecer a carta de liberdade, d. Pedro desanuviou-se das tristezas que por alguns momentos o ensombraram com o caso de Branca.

De toda essa história tenebrosa que o fizera cruzar armas contra o Satanás não percebia grande cousa. Ficava-lhe apenas na memória o vago delineamento incerto de uma criança que ele supusera amante do escultor e que fora sua por uma noite sombria e treda como nas aventuras daquele tempo. E ficava-lhe principalmente nos quartos baixos do palácio o magro fidalgo das Espanhas que se aproveitava da ferida para prolongar o seu apetite e as suas bravatas.

D. Bias fortunava-se de fato um homem feliz. Servia-se do ferimento como indelével e irrecusável atestado de bravura inscrito no pergaminho da sua pele. E servia-se mais ainda do cozinheiro do Paço a quem estava constantemente pedindo bifes e bifes e outras esquisitas guloseimas.

Gesticulava, gritava e berrava.

Inimigo da solidão, rodeava-se dos criados a quem vivia contando as aventuras complicadas em que se metera. E tanta fertilidade tinha a sua irrequieta imaginação de espanhol, que conseguia sempre forjar mais um caso para o serão de cada noite, e mais um episódio para a conversa de cada dia.

(continua...)

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