Por Aluísio Azevedo (1895)
- É longe?
- Nem por isso. Este seu companheiro é que não gosta muito de falar... observou o Sampaio, querendo puxar o Coruja à conversa. - Também vem para os estudos?
- Não sei, balbuciou André secamente.
- Talvez se empregue, acrescentou Teobaldo.
- No comércio?
- Ou em outra qualquer coisa.
E Teobaldo, abrindo a boca em um bocejo:
- Não sei que mais tenho, se vontade de dormir, de comer ou tomar banho!
- Com poucas fará tudo isso. Estamos quase em casa; e descanse que nada lhe faltará.Há de ver!
Estas atenções do negociante pelo rapaz não eram puro espírito de hospitalidade e provinha sem dúvida dos interesses que o barão dava anualmente à casa comercial dele. Sampaio era o encarregado de lhe sortir a fazenda de tudo que precisava ir da corte, e nessas faturas o fornecedor de antemão pagava-se de todas aquelas galanterias.
Às nove horas da noite achavam-se os nossos rapazes, depois do indispensável banho, assentados em volta do seu hospedeiro e defronte de uma excelente ceia, que fumegava sobre a mesa.
Sampaio, enquanto eles comiam, procuravam instruí-los pelo melhor os costumes da vida fluminense, da qual se julgava grande conhecedor, sem nunca aliás ter arredado pé do burguês e acanhado círculo em que vivia.
- Isto aqui, rezava ele - é um demônio de uma terrinha, que tanto pode ser muito boa, como pode ser muito má. Depende tudo de cada um e de cada qual. Não há terra melhor e nem há terra pior! Para aqueles que desejam se fazer gente, trabalhar, dar-se ao respeito não há terra melhor; mas para os que só pensam na pândega e têm, como o senhor, ordem franca em uma casa comercia! como esta, - não há terra mais perigosa!
Estou certo, porém, de que o Sr. Teobaldo há de dar boa conta de si!
- Também eu, disse o filho do barão, recuperando o seu bom humor.
- Sim, continuou o negociante, mas com esses ares, com essa carinha de moço bonito, é preciso ter muito cuidado com as francesas!
- Com as francesas?
- Francesas é um modo de dizer. Refiro-me a todos esses diabos de que vai se enchendo o Rio de Janeiro e que não fazem outra coisa senão esvaziar as algibeiras dos tolos!
- Mas de que diabo fala o Sr. Sampaio?
- Ora essa! das mulheres! Pois então o senhor não me compreende?
- Ah! Com que isto por aqui é fechar os olhos e...
- Um desaforo! Dantes ainda as coisas não iam tão ruins; mas ultimamente é uma desgraça! Todos os dias estão chegando mulheres de fora! Eu nem sei como o governo não toma uma medida séria a este respeito!
Teobaldo sorriu desdenhosamente, e o Sampaio acrescentou:
- Todo o cuidado é pouco para não cair nas garras de algum dos tais demônios! Encontrando o perigo - é fugir, fugir, para não chorar ao depois lágrimas de sangue! O senhor veio ao Rio foi para estudar, não é? Pois enterre a cara dentro dos livros e feche os olhos ao mais!
- Pode ficar tranqüilo, respondeu Teobaldo, levando Q seu copo à boca,
- Não digo que não se divirta... prosseguiu o Sampaio; consinto que vá ao teatro de vez em quando; se se der com alguma família, pode freqüentá-la; mas tudo isso, já se vê, com muita prudência e com muito juízo. Evite as más companhias, fuja dos vadios e dos viciosos; não freqüente a rua do Ouvidor; não entre nos cafés! E, abaixando a voz e chegando-se mais para o moço, disse, com o mistério de quem faz uma revelação terrível: - E, principalmente, meu amigo, não se meta a escrevinhador. Teobaldo ergueu a cabeça, surpreso:
- Como?
- Sim, confirmou o outro. - Não se meta a escrevinhador, que isso tem posto muita gente a perder! Poderia citar-lhe mais de cem nomes de estudantes, de quem fui correspondente, que perderam anos, que cortaram a carreira por causa da maldita patifiria das letras! Eu os vi, a todos, por aí, enchendo as ruas de pernas, mal alimentados, e mal vestidos, com a mesada suspensa pela família, a fazerem garbo das suas necessidades e às vezes até das suas bebedeiras! Teobaldo ouvia agora o negociante com singular atenção.
- Fuja! continuava aquele: fuja de semelhante porcaria! se não quiser ver o seu nome todos os dias na boca do mundo!
- O nome?
- Sim, sim, o nome, que seu pai lhe pôs à pia do batismo! Se não quiser vê-lo de boca emboca não se meta a escrevinhador! E ainda se fosse apenas isso... vá! É feio, mas enfim, sempre há homens sérios, cujo nome o público não ignora; o pior é que às vezes rebenta por aí cada descompostura, que é mesmo uma vergonha! Quem se deixa cair em tal desgraça não está livre das chufas da imprensa e dos comentários do mundo inteiro!
E o Sampaio, para melhor firmar os seus argumentos, principiou a citar nomes.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.