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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Porém, proibida como estou de dizer­lhe que o querem matar, ele será muito capaz de me não atender!...

— Bem! nesse caso porás um sinal à janela. Às duas e meia passarei por aí fora; se naquela sacada estiver um lenço embrulhado à maçaneta, é que não obtiveste cousa alguma, e nesse caso tratarei eu de providenciar por outro lado.

— Pois bem! disse Virgínia; mas por que o querem matar?!

— É segredo... Mais tarde o saberás!

Gaspar saiu.

Paulo chegou à casa pouco antes da meia­noite.

— Então, minha querida, está tudo pronto? Mete estes pacotes em uma das malas.

Virgínia aproximou­se e deu­lhe um beijo.

— Paulo, disse ela, tenho uma cousa a pedir­te...

— A pedir­me?

— Sim. É uma cousa, que desejo muito, muito! Uma cousa para o interesse de nós ambos!...

— É a respeito do pequenito?...

— Não; é a teu respeito: Não saias hoje de casa, sim?

— Sim, não sairei hoje; sairei amanhã às quatro da madrugada...

— Ou isso...

— Mas afinal, o que tinhas tu a pedir?

— Era isso mesmo. Desejava que transferisses esta viagem...

— O que há? temos alguma novidade? sentes alguma cousa?!...

— Não sinto, mas pressinto... Faze­me a vontade, sim?

— Ora, o que, filha? Pois isso é lá cousa que se faça!... Não sabes que esta viagem é negócio muito sério?!...

— Sei, sei! mas é que...

— Deixa­te de tolices! Ora, para que te havia de dar!...

— Se soubesses...

— Se soubesse o quê?...

— Sinto­me oprimida... Receio que te vá suceder qualquer desgraça! Não partas, eu te peço, meu amigo!

— Isso é nervoso! Olha: vai para o piano. Toca um pouco de música, que a crise passa.

— Em todo o caso, se me quiseres fazer um grande serviço, não partas...

— Estás a brincar, Virgínia; pois se te disse já qual é o interesse que me leva.

— Ora, não pode haver maior interesse do que o meu em que não vás!

— Com certeza, não falas a sério...

— Falo, meu querido, falo! é que rigorosamente preciso que não partas!

— Ora, adeus! Caprichos!

— Não são! juro­te!

— Então, o que vem a ser?

— Não te posso dizer!...

— Pois sim; mas vê que me não falte cousa alguma nas malas...

— Então, sempre estás resolvido a ir!...

— Pois eu desmanchava lá uma viagem, porque... porque entrou agora a noite no quarto alguma borboleta preta, ou...

— Afianço­te que tenho razões sérias para...

— Estás agora a inventar motivos! Perdes teu tempo. Eu vou.

Às duas horas, Paulo não tinha ainda mudado de resolução. Virgínia fora gradualmente se tornando mais e mais aflita; era já entre lágrimas que rogava ao marido para ficar.

Paulo impacientava­se.

A mulher pedia­lhe por tudo que desistisse da viagem: pelo seu amor, pelo amor da mãe dele e pelo de filhinho que ela tinha nas entranhas.

— Ora, adeus! disse Paulo asperamente e perdendo afinal a paciência. Já me vai cheirando mal a brincadeira! Já te disse o que tinha a dizer! Cala­te!

E, passeando pelo quarto, gesticulava irritado. — O que ele bem dispensava era maçar­se antes de sair!

— E pensas que estou muito satisfeita?! perguntou Virgínia.

— Tolices! Estariam os homens bem avisados, se se deixassem levar pela fantasia de vocês mulheres!...

E, voltando­se para ela, disse­lhe em tom de ordem:

— Não quero ouvir mais falar aqui em semelhante cousa!

Ela passou­lhe os braços em volta do pescoço.

— Mas é que te querem matar, toleirão! Percebes? armam­te uma cilada! Eu não podia dizer tanto, porém, tu me obrigas a isso!

Paulo soltou uma risada.

— Querem matar­me!... Tem graça! Por quê?

— Sei cá. por que!... O que sei é que vais ser agredido!

— Ora, minha mulher, a senhora afinal está ridícula!

O relógio marcou duas e meia.

— Enfim, sempre vais?! perguntou Virgínia.

— Não me aborreças! disse Paulo, dando­lhe as costas.

Virgínia correu à janela.

— Que fazes? perguntou­lhe o marido.

— Previno alguém de que partes, para evitar a emboscada.

— Que alguém é esse? Que diabo quer isto dizer?!

— Já te disse tudo o que podia; insistes em ir...

— Mas, vem cá! conta­me o que há!

— Ora, Paulo! se eu pudesse dizer, mais, já teria dito!

— Onde está meu estojo de armas?

— Naquela estante.

— Fica descansada. Se houver qualquer cousa, eu saberei defender­me!

E às quatro horas, encaminhava­se Paulo Mostella para a ponte de Santo Antônio, apertando na mão um revólver de seis tiros.

As ruas estavam completamente desertas e silenciosas.

X

SANGUE

Gaspar, entretanto, ao perceber que Virgínia amarrava o lenço na janela, perguntou­lhe da rua:

— Então? O que decidiu teu marido?

(continua...)

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