Por Bernardo Guimarães (1883)
— Cruz! arreda daqui, rapariga; só o nome dessa mulher traz máo azar; vou-me embora.
— E eu tambem ; já a pinga que tomei, está me fervendo na garganta sb de ouvir esse nome. Antes o diabo me appareça.
— Quem sabe, minha tia, si mecê tambem é do rodinha das pretas feiticeiras, que moravão com essa velha de uma figa?
— Eu não! Cruz Ave Maria! — exclamou Lucinda espavorida.
— Pois então que diabo de negocio tens com essa carcassa excommungada, de que ninguem quer ouvir nem o nome?
— Ué ! meu branco. ... conheci ella n'outro tempo! agora estou perguntando; que mal faz isso?. ..
— Não passaste pela casa della ahi na estrada ?
— Passei, senhor sim ; mas a casa está toda queimada, e lá não encontrei viva alma.
— A casa ardeo ha de haver tres para quatro annos. Assim tambem dcve arder a dona nas caldeiras do cão tinhoso.
— Então ja morreo?! exclamou Lucinda transida de susto. A boa preta interessava-se pela vida dessa mulher perversa c detestada, como si ella lhe fôra mãe idolatrada,
Não sei, nem quero saber, — respondeo o caipira sem reparar na cornmoção de Lucinda. — Si não deo ainda, não tardará muito em dar a alma ao diabo que a carregue.
Mas emfim... balbuciou Lucinda.
— Mas emfim, interrompeo o interlocutor, — si quer saber mais alguma cousa, vá acolá naquella casinha; não está vendo? é lá que a brucha mora, si é que o diabo ainda não a carregou.
Dizendo isto, o homem apontava para um miseravel casebre, coberto de capim, que se avistava a uns trezentos passos de distancia, e algum tanto arredado do caminho.
— Ali, meu Deus ! naquelle pobre ranchinho! — exclamou Lucinda. — Coitada! ella que era tão bem arranjada como são as cousas deste mundo!
— Cala-te dahi; si tu a conhecesses melhor não estavas ahi com tanta pena della. Ou és da mesma laia, ou não conheces bem a tal brucha.
— Mas eu desejava tanto saber si ainda é viva.
Pois vá lá saber, — respondeo brutalmente o interlocutor.
— Mas olha que não te agarre ellas pelas orelhas, e não te leve comsigo para os infernos, — accrescentou outro caipira.
Atarantada com tantas chufas, e apavorada com o medonho retrato que fazião de NhaTuca, a pobre Lucinda não sabia o que devia acreditar, nem o que devia fazer. Bem via que aquella gente estava toda com a cabeça esquentada com as amiudades libações alcoolicas, e que todos aquelles ditos contra a pobre velha poderião não ser mais que meros gracejos inspirados pela bebida; mas por outro lado a antiga casa de Nha-Tuca, que acabava de ver cm ruinas e quasi toda devorada pelo incendio, e o miseravel ranchincho que lhe estavão mostrando como sua nova vivenda, tornavão mais que provavel o que estavão dizendo os caipiras. Esteve por algum tempo em estado de hesitação olhando para a casinha como querendo resolver-se a lá ir; mas faltava-lhe o animo.
Por fim um homem algum tanto edoso, que alli estava na roda, porém com a cabeça mais calma e fresca do que seus companheiros, observando a anciosa inquietação em que se achava a creoula, para saber ao certo a sorte da velha, compadeceo-se della, e chamando-a de parte assegurou-lhe que aquelle ranchinho era de facto a actual morada de Nha-Tuca, que ainda era viva, mas que ha muitos dias se achava ás portas da morte. Contou-lhe mais em poucas palavras que essa mulher tinha perdido tudo quando possuia c cahido na mais profunda miseria, vendo morrerem uma por uma em pouco tempo de molestias ruins o contagiosas todas as suas escravas, que constituião seu principal cabedal ; que tambem de certo tempo em diante fôra dimiuuiDdq rapidamcntc toda a freguezia de seu negocio, até que por fim para cumulo de males pegou-lhe fogo na casa, que ardeo toda em uma noite, mal podendo escapar os moradores, e que Nha-Tuca, vendo-sc reduzida á ultima poDreza, se havia refugiado naquelle ranchinho que por compaixão lhe ha• vião cedido, e onde vivia das mingoadas esmoIas, que bem pouca gente lhe dava; que dois dias antes morrera de repente a unica escrava que lhe restava, que lhe fazia companhia e esmolava para ambas, si bem que em estado quasi tão lastimoso como a senhora. O povo attribuia todas essas desgraças a castigo pelas maldades que essa mulher tinha praticado, e que por muito tempo andárão encobertas. Por isso todos fugião della, e a deixavão abando nada naquelle miseravel ranchinho, onde se achava morrendo á mingoa.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.