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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

—Isto é para Miranda, em Mato Grosso. Isto para Coxim, Cuiabá... para Poconé, Diamantina... isto são cartas cujos donos não encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.

—E são muitas? perguntou Pereira.

— Três ou quatro. Vejamos... uma é para o senhor João Manuel Quaresma, no Pitangui; esta, para o senhor Martinho dos Santos Perreira, em Piumi...

—Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita admiração. Leia outra vez... leia por favor...

Meyer obedeceu.

—Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para mim...

—Hu, hu! gaguejou o alemão boquiaberto. É muito curioso isto!

—Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques à volubilidade. Está claro, claríssimo!... Quando me escreveram, pensavam que eu ainda morava lá em Piumi. Pois, se nunca contei a ninguém em que buraqueira me vim meter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora Sant'Ana, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas alturas! Pode ler, senhor Maia... Estou doido por saber quem se deu ao trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumi... sou eu! Que dúvida: não há dois. Veja só o nome... pelo amor de Deus, o nome de quem me dirige a carta.

Rompeu o alemão com alguma dúvida e escrúpulo o selo; correndo com os olhos a lauda escrita, procurou a assinatura e pausadamente leu "Francisco dos Santos Pereira".

—Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão... o Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o conserve por muitos anos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa assim?... Como se anda neste mundo, heim, senhor Cirino? Quem havera de dizer que este homem, que aqui chegou ontem por acaso e alta noite, havia de trazer na canastra uma carta de um irmão que não vejo há mais de quarenta anos?!... Ora esta!... São voltas deste mundo... As pedras se encontram... Foi em 1819... não, em 20... Mas depressa... leia a carta.. vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da família passava por ser o de mais juízo; também era o mais velho de todos nós... O Roberto, o caçula... Seja o senhor muito bem-vindo nesta casa... Depois de tantos anos, trazer-me noticias da minha gente!

Cortou Meyer aquele movimento de efusão que prometia ir longe, começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos olhos para poder decifrar.

"Martinho, dizia a despretensiosa epístola, dirijo-te estas mal traçadas linhas só para saber da tua saúde e dizer que o portador desta um senhor de muita leitura e vai para os sertões brutos, viajando e estudando países e povos. Veio-me do Rio de Janeiro muito recomendado. Peço que o agasalhes, não como a um transuente qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais velho e chefe da nossa

família ... "

—Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.

"E homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus, Martinho. Eu estou estabelecido na Mata do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos, três machos e duas famílias, estas casadas, e que me deram netos; já faz bastante tempo. Não estou muito quebrado de forças. Há mais de oito anos que não tenho notícias tuas. Soube que o Roberto tinha morrido no Paranan..."

—Roberto?... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.

E repentinamente, representando-lhe a memória os tempos da infância, arrasaram-se-lhe os olhos de lágrimas.

"Sem mais aquela concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saúde. Teu irmão, Francisco dos Santos Pereira".

—Deveras, disse o mineiro depois de breve silêncio, adiantando-se para o alemão e apresentando-lhe a destra aberta, o senhor me deu um fartão de alegria. Toque nesta mão e, quando ela se levantar para bulir num só cabelo de sua cabeça ou de alguém da sua família qualquer que seja o agravo que me possam fazer, seja ela logo cortada por Deus, que nos está ouvindo.

—Obrigado, senhor Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.

—Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que uma letra do Imperador que governa o Brasil. É o que lhe digo, senhor Maia...

—Meyer, corrigiu o alemão apoiando com força na última sílaba, Meyer.

—Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com a coisa. Mas como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu irmão mais velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse ele mesmo em pessoa, o Chico;...

acabou-se.

(continua...)

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