Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma distração que ela não partilhava? 

- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel. 

- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe. 

- Já li; disse simplesmente Miguel. 

- Não é tão bonito? 

- Muito. 

- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda. 

  Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço. 

- O senhor não deseja formar-se? 

- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego: 

- Mas para que pensar nisto? 

- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem. 

- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo. 

- Papai lhe empresta. 

- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu. 

- Por que razão? 

  De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina: 

- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar. 

- É verdade! 

  Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos. 

- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí? 

  Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr para a figueira e veio interromper o colóquio. 

- Onde vai o sr. Galvão? 

- Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.  

- Você não me disse nada. 

- Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou tão assustada. 

- Por que? perguntou Migue. 

- Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto da fazenda um homem muito mau. 

- O bugre! 

- Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá. 

- Isso mesmo. 

  Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu o seio como para reter o coração que lhe fugia. 

- Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não agoniar mamãe ainda mais do que ela estava; porém quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trêmula. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2122232425...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →