Por José de Alencar (1872)
- O Sr. Guimarães deve apresentar-nos o seu amigo, não acha, papai?
- Decerto!
- Terei muito prazer. Encontrando-me com ele... ia respondendo o Guimarães. Atalhou porém o Dr. Nogueira:
- A flor é naturalmente essa que a senhora tem no seio?
- Sim, senhor, é esta mesmo. Veja papai, como é linda!
- Muito! Quase que podias trazê-la como pingentes.
- Boa idéia, papai! Vou mandar fazer uns brincos deste feitio.
- Ficarão magníficos.
- E há de ser moda!
- Sr. Bastos, o senhor me há de fazer o favor?... disse a moça.
- Com muito gosto, D. Guida!
A flor corria de mão em mão; e teria se desfolhado afinal se a dona não reclamasse com instância para restituí-la à sua posição.
- Guida anda apaixonada por essa flor, disse D. Clarinha. Há mais de um mês que me fala nela.
- Será pela flor? Perguntou o Dr. Nogueira com um sorriso malicioso.
Guida lançou-lhe um olhar, que era um alfinete embebido em aljôfar:
- Não é pela flor, não. É pelo senhor. Pois não sabia?
- Ah! se fosse, D. Guida, eu seria o homem o mais feliz do mundo, acredite!
- Bravo, bravo! E então, D. Paulina?
- Guida sempre foi muito apaixonada de flores, respondeu a senhora, aturdida por aqueles constantes diálogos que se cruzavam.
A moça respondera à fineza do Dr. Nogueira, inclinando altivamente a fronte, e soltando um irônico – “obrigada!” Quando aplacou-se o rumor das risadas e exclamações provocadas pela declaração amorosa que, a título de fineza, lançara o Dr. Nogueira tão à queima-roupa, o Soares, ocupado em despachar conscienciosamente o lombinho de porco, pôde introduzir uma observação que lhe acudira.
- Ande lá, Dr. Nogueira, creio que não é o senhor o único. Há mais quem pense da mesma maneira!
- Decerto, disseram quase ao mesmo tempo o Guimarães e o Bastos, um enrubescendo, o outro empalidecendo. Talvez que outras exclamações mais submissas viessem aos lábios, e outros rumores mais tímidos subissem às faces; mas não se animaram a aparecer. Perderam-se nos aplausos com que foi recebida a observação do dono da casa.
- Está bom, disse a Guida, a quem o tema da conversação não agradava; ninguém quer saber disto agora, papai; mudemos de assunto.
- Pois muda tu, que nisso de mudar, as mulheres estão no seu elemento.
- O que não é muito lisonjeiro para os homens.
- Conforme.
- Mas escute, papai. Estou resolvida a vender “Edgard”. Depois do que me fez hoje, não posso mais suportá-lo. Quer comprá-lo?
- Não; eu cá, não deixo a minha mula paulista. Esses cavalos da moda, que vocês apreciam por serem muito grandes e muito caros, não me servem.
- Então compre para mamãe.
- Pois não! Que lembrança! acudiu D. Paulina.
- Nada. Contigo não quero negócio, replicou o Soares. Dizem por aí que sou um espertalhão; mas ainda está para ser a primeira vez que não me logres.
- Qual, papai! exclamou Guida sorrindo. É o senhor que se engana a si mesmo; o pai logra o capitalista! - Muito bem!
- Será isso então! replicou o Soares rindo com prazer.
Acabara o almoço. Guida, com uma cortesia geral, deu o exemplo levantando-se da mesa.
Ela exercia esse direito por uma delegação tácita da mãe, incapaz de tomar por si tão grave resolução. O Soares, que podia adverti-la com um sinal, estava inibido de o fazer. Se nos dias de trabalho o capitalista almoçava a vapor, nos domingos tinha saudades da mesa e custava a separar-se dela.
VIII
Deixando a mesa do almoço, as pessoas reunidas em casa do Soares espalharam-se pela sala, varanda e jardim, formando grupos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.