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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

O homem da cidade não compreende êsse hábito silvestre. Para êle a mata é uma continuação de árvores, mais ou menos espêssa, assim como as árvores não passam de uma multidão de fôlhas verdes. Lá se destaca apenas um tronco secular, ou outro objeto menos comum, como um rio e um penhasco, que excita-lhe a atenção e quebra a monotonia da cena. 

Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada árvore um amigo ou um conhecido a quem saúda passando. A seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as coroas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e números. 

Arnaldo estivera ausente daqueles sítios algum tempo. Ao passar por êles observava sua fisionomia, tão inteligente e franca para êle, senão mais do que a face do homem; e lia nesse diário aberto da natureza a crônica da floresta. Uma fôlha, um rasto, um galho partido, um desvio da ramagem, eram a seus olhos vaqueanos os capítulos de uma história ou as efemérides do deserto. 

A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que, a-pesar-de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar onde estava. 

Com pouco ouviu-se um vozear de prática animada, e cinco homens, trajados como usava a gente do povo naquele tempo, de braga, véstia e gibão, surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao ombro e uma parnaíba à bandoleira. 

O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica; os outros, serviçais da fazenda. 

— Oh! cá está quem sabe do diabo do velho! exclamou o feitor, dirigindo-se a Arnaldo. Bem aparecido! 

— Quer alguma coisa de mim, sr. Manuel Abreu? perguntou o sertanejo. 

— O senhor capitão-mór mandou-me procurar o velho Jó que deitou fogo no mato da fazenda. 

— Procure-o; disse Arnaldo laconicamente. 

— Não está má a encomenda! Que temos feito desde o romper do dia? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se. 

— Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e êle estourou. O fogo foi pegado pelo ênxofre que êle tinha no corpo, o canalha do bruxo. 

— Deixe-se dessas histórias de feitiçaria agora, João Coité, que arrepiam os cabelos da gente, ponderou o feitor. 

— É mesmo: fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça. 

— Uma não terá você, Burití; mas duas, com certeza. 

— Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana; o outro conserta. 

— Que é que está bolindo alí no mato? Não ouviram gemer? 

— Há de ser o caipora; respondeu um mais desabusado. 

— Nicácio! Não brinque com estas coisas. 

Entretanto Arnaldo seguia adiante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas a que o povo dá o nome de malícia de mulher por descobrir no súbito fechar das fôlhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas. 

O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos; mas justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos pecíolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas. 

— Chuva! 

Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se a Nicácio que estava ao seu lado; possuído do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alvíçaras dessa alegria.

— Deus a traga! disse Nicácio. 

— Esta noite! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando. 

— Porisso eu vi esta manhã uma formiga de asas, acudiu o Burití. 

— Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho? Voltou-se o mancebo com um modo frio: 

— Quando o senhor capitão-mór Campelo m’o perguntar, eu lhe responderei. 

— Ah! É isto? Pois tenha paciência, que lhe vamos na cola. Não o largo enquanto não me der conta da carcaça do Jó, que a leve o demo logo duma feita. 

Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indiferente por entre as árvores. O feitor e seus acólitos iam-lhe no encalço, quando súbito o perderam de vista. Correramlhe sus, bateram o mato; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo. 

— É à-toa! disse o João Coité. Se o diabo do surrão velho já o embruxou também. 

 

X – O rosário 

 

Era por formosa manhã de dezembro, a terceira que raiava depois da chegada do fazendeiro à sua casa da Oiticica. 

Assomando sôbre o capitel da floresta erguida no oriente como o pórtico do deserto, o sol coroado da magnificência tropical dardejava o olhar brilhante e majestoso pela terra, que se toucara de toda a sua louçania para receber no tálamo da criação ao rei da luz. 

(continua...)

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