Por José de Alencar (1860)
Meneses – Sem dúvida! Esperamos naquela saleta. Anda, Helena; vem divertir-nos contando os teus arrufos com o Vieirinha.
Helena (à Carolina) – Não sofras maçada. Carolina – Deixa.CENA III
(Pinheiro e Carolina)
Pinheiro – Vejo que a minha presença lhe aborrece, Carolina. Só um motivo forte me obrigaria a importuná-la.
Carolina – Previno-lhe que vou sair; portanto não se demore.
Pinheiro – Houve tempo em que nesta mesma sala, neste mesmo lugar, a mesma voz se queixava quando eu não podia me demorar.
Carolina – Deixemos o passado em paz.
Pinheiro – Não se recorda.
Carolina – As mulheres só começam a recordar depois dos quarenta anos; antes gozam.
Pinheiro – Pois bem! Que esqueça o amor, compreendo; mas há certas coisas que lembram sempre.
Carolina – Não sei quais sejam.
Pinheiro – Os benefícios.
Carolina – Deixam de ser quando se lançam em rosto.
Pinheiro – Não foi essa minha intenção, Carolina; desculpe. O meu espírito se azeda com estas reminiscências. antes que a ofenda de novo, não vou dizer o que lhe quero pedir.
Carolina – Ah! Vem pedir?
Pinheiro – Admira-se!
Carolina – Como nunca pedi, estranho sempre que me pedem.
Pinheiro – Talvez algum dia seja obrigada!...
Carolina – Deixamos o passado para tratar do futuro? Pois olhe, se um pertence às mulheres velhas, o outro é o consolo das pobres meninas de dezoito anos, que vivem a sonhar.
Pinheiro – Deste modo não me deixa dizer...
Carolina – Que lhe impede?
Pinheiro – Suas palavras de sarcasmo.
Carolina – Estou hoje contrariada.
Pinheiro – Por que motivo?
Carolina – Não sei.
Pinheiro – É a minha presença?... Tem razão; estou lhe roubando o seu tempo; outrora podia comprá-lo; hoje estou pobre; gastei toda a minha fortuna. Não me queixo, nem a acuso. Sofreria resignado essa perda se ela fosse apenas uma perda de dinheiro, e não acarretasse a desgraça de outra pessoa.
Carolina – Que tenho eu com isto?
Pinheiro – Deixe-me acabar. Vou confessar-lhe uma vergonha minha; mas é preciso: seja este o primeiro castigo. Escuso lembrar-lhe, Carolina, que ou por amor ou vaidade, procurei sempre adivinhar, para satisfazê-los, os seus menores desejos.
Carolina – Loucura! Não há nada que encha esse vácuo imenso que se chama o coração de uma mulher.
Pinheiro – É exato, toda a minha fortuna se sumiu no abismo; restavam-me apenas cinco contos de réis, que não me pertenciam. Eram um legado que meu pai deixara como dote a uma menina órfã, sua afilhada. Esse dinheiro devia ser sagrado para mim por muitos motivos; devia respeitar nele a última vontade de meu pai e a propriedade alheia; entretanto, foi com ele que comprei aquela pulseira que lhe dei no último dia em que estive nesta casa.
Carolina – Ah! Aquela pedra só custou cinco contos?
Pinheiro – Custou um roubo! A órfã me pede o seu dote para casar-se; e eu não o tenho para restituir-lhe.
Carolina – Então é impossível; não pense mais nisso.
Pinheiro – Não é impossível se quiser, Carolina; faça um sacrifício, empreste-me esta jóia, e juro-lhe que com o meu trabalho lhe pagarei o valor dela.
Carolina (rindo) – Ah! Ah! Ah!... É interessante!... Sr. Meneses! Helena! Sr. Araújo!... Ouçam esta! É original.
CENA IV
(Os mesmos, Meneses, Araújo e Helena)
Helena – O que é?
Meneses – Alguma outra anedota?
Carolina – Uma lembrança muito engraçada.
Araújo – Faço idéia!
Carolina – O senhor entendeu que devo agora fazer-me mascate de jóias.
Meneses – Não é má profissão.
Carolina – Adivinhem o que ele veio propor-me!
Helena – Por que não explicas logo?
Carolina – Querem saber?
Pinheiro – Eu poupo-lhe o trabalho; não tenho vergonha de confessar. É um homem, meus senhores, que tendo consumido com uma mulher a sua fortuna, perdeu a razão ao ponto de comprar-lhe o último presente com um depósito sagrado que lhe foi confiado. Ameaçado do opróbrio de uma condenação, esse homem vem pedir àquela a quem tinha sacrificado tudo, que o salvasse, emprestando-lhe essa jóia cujo valor ele jurava restituir-lhe com o seu trabalho. A resposta que teve foi a gargalhada que ouviram.
Carolina – Não tinha outra.
Meneses – Certamente.
Araújo – Como, Meneses?
Carolina – Vê!
Pinheiro – O senhor aprova?
Meneses – Não, senhor.
Araújo – Mas,
então?...
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.