Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
E aqueles que não são pais de família, nem mancebos, e que contudo são ricos, olham para o homem pobre por sobre o ombro, envergonhar-se-iam de lhe dar o braço num passeio, e quase que têm pejo de o considerar de sua mesma espécie.
A mulher... oh! mas em honra da verdade digamos aqui: a mulher é apenas que ainda retém alguma generosidade e nobreza no meio desta nossa perversão tão grande; a mulher está aí no jogo de altas inspirações e sentimentos elevados, envergonhando o homem todos os dias. Mas pode ir o pobre até a mulher?... como? se para chegar até ela é preciso vencer essa barreira de gelo, essa massa imunda que a prende como, se adiante da mulher está o homem?...
E quereis saber o que se pretende e se consegue com isso?... que uma linha divisória separe os filhos de Deus; que o mundo pobre faça seu ninho muito à parte, e não vá conspurcar o céu da riqueza, que a casa do rico não seja empestada pelo hálito do pobre!...
Erga-se embora o pai de família, e diga que nós mentimos; brade o mancebo, e jure que insolente aleivosia lhe levantamos. Realmente um ou outro pai de família, um ou outro mancebo desmente essa regra; mas o gênero humano aí está em totalidade demonstrando-a na prática de um modo abominável.
Será que o gênero humano esteja assim todo, todo pervertido?... não. Em regra geral, cada homem individualmente tomado, cada um de per si repele a teoria infernal, mas vai realizá-la na prática; porque cada um de per si diz que não é ele que há de emendar o mundo, e, em uma palavra, porque esse ente abstrato, pervertido, degenerado, imundo, a nossa sociedade enfim, aceita, abraça a teoria, e, como já dissemos, horrivelmente a pratica.
É por isso que a sociedade não discute entre o rico estúpido e o pobre instruído: a vitória cabe sempre ao primeiro.
É por isso que ela, sem pudor, deixa a um canto a pobreza honrada, e festeja, lambe os pés da riqueza, mesmo indignamente adquirida.
É por isso que a porta que se não abre ao pobre modesto e nobre, se escancara
ante o milionário imoral, cuja presença em uma casa é ás vezes o anúncio da desonra.
É por isso... mas basta. E se a sociedade disser que mentimos, nós a mandaremos olhar para si mesma; e ela há de por força corar de vergonha, observando-se.
Ainda se o caminho da fortuna e da riqueza se facilitasse a todos os homens...
mas não; uma porta de ferro a fecha, e o pobre não pode vencê-la, porque não tem a chave que abre todas as portas... o dinheiro.
E agora pensareis que por isso maldizemos a sociedade geral?... que sobre os ombros lhe lançamos a pesada culpa de tanta miséria?... Não, mil vezes, não!
Não deve ser maldita a sociedade geral; sê-lo deve somente a sociedade que governa.
Aí está o poeta nacional que brada:
“Nasce de cima a corrução dos povos”.
E aí está a sociedade que governa, justificando o bradar do poeta:
Com a impunidade espantosa do rico.
Com o patronato, o escândalo, e a servidão vergonhosa que se presta ao rico.
Com a preferência inaudita que em tudo se dá mil vezes ao rico sem mérito algum, sobre o homem que, sendo embora distinto, é todavia pobre.
O que queríeis que fizesse a sociedade geral?... ela hoje, como sempre, arremeda a sociedade que governa.
É o governo quem desmoraliza quem tem desmoralizado o povo; o erro vem daqueles a quem cumpria mostrar o bom caminho, caminhando eles mesmos adiante.
Mas seja de quem for a culpa, o resultado é sempre o mesmo. A sociedade, geralmente pervertida, repele a pobreza o desvalimento.
E agora compreendei conosco o homem pobre lançado aí no meio da sociedade que o rejeita. Entrai conosco dentro do seu coração para poder bem sentir o que se passa nele.
Em conseqüência desse constante sofrer, em conseqüência da inabalável firmeza com que a sociedade desenvolve o nefando programa da onipotência da riqueza, resulta que profundas e terríveis convicções se imprimem no coração do pobre. Ele se acha convencido que nas relações políticas não se dá jamais igualdade de lei entre rico e pobre, quer se deva “proteger”, quer “castigar”. Há iniqüidade sempre; porque para o pobre não há proteção, mas há castigo, e para o rico há proteção, há patronato, e há impunidade.
Nas relações domésticas, em conseqüência dessa depravação pública, tributase um culto espantoso à riqueza, e o homem pobre acha quase sempre naqueles que mais têm, ou desprezo, ou um esquecimento involuntário, que dói ainda mais, porque é a demonstração viva da própria miséria.
Sabeis qual é, e qual será o resultado de tudo isto?...
É que hoje o pobre não tem amor às instituições, nem confiança no governo; porque as leis servem somente de puni-lo, e o governo não cura de protegê-lo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.