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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Entretanto, apareceu entre os pretendentes de Arabela um rico e jovem fidalgo, que, levado dos lindos olhos e perfeições da pobre moça, se esqueceu de que alta era a sua linhagem, elevados os seus teres e, descendo do seu brilhante palácio a uma rasteira casinha, veio pôr o seu coração de grande senhor aos pés de uma humilde aldeã.

Debalde o seu muito ostentar de galas e louçainhas, debalde o seu alto despender de agrados e extremos, o grande senhor passava por baixo dos olhos da pobre aldeã com o seu amor tão mal-atendido como os outros: ainda não era a D. Rui Vaz que devia pertencer a alma de Arabela.

Mas o amor de Rui Vaz era tão ardente como puro; e foi ele, a despeito das repulsas da moça, oferecer seu nome à família dela: era um partido imensamente brilhante; era um nome de fidalgo que ia cobrir o desconhecido e simples da popular; era um palácio que se trocava por uma cabana; era um futuro que se oferecia a quem não tinha passado e só podia contar com um pobre presente. Os pais de Arabela foram entusiasmados aplaudir a filha; mas recuaram espantados, porque ela lhes respondeu:

— Não foi para este que eu nasci.

— Mas olha, Arabela, disse o pai, que se trata do Sr. D. Rui Vaz, rico fidalgo de alta linhagem.

— Que hoje me ama, tornou a moça, que casando-se comigo há de ainda amar-me um ano, e depois se envergonhará de meus pais e terá enfim pejo de andar comigo a seu lado. Os pais calaram-se, porque era isso, na verdade, o que havia de acontecer; mas depois a mãe disse:

— Pensa, Arabela, que já fizeste dezoito anos, e que é tempo de tomar um marido que te proteja; cumpre escolher um noivo.

— Eu já o tenho escolhido, minha mãe.

— Então, quem é?

— Gil Mendonça.

— Bom mancebo é ele, minha filha; mas tão pobre!

— Como eu também o sou, minha mãe; porém, ambos nos amamos.

— Homem, disse a mulher ao marido, irás levar a resposta de Arabela ao Sr. D. Rui Vaz. — Irei, mulher; posto que me pareça loucura preferir um aldeão a um fidalgo; mas Arabela tem mais juízo do que nós pensamos; ela que assim o fez, é porque assim o devia fazer. A vontade de Arabela foi prontamente cumprida; e, ao mesmo tempo que D. Rui Vaz se sentia despeitado da sua má fortuna, tudo se dispunha para o casamento da linda popular com o feliz Gil Mendonça.

Na véspera do casamento, em volta de uma tão frugal como alegre mesa, estavam os noivos e seus pais, quando entrou o fidalgo, que vinha tentar o último esforço.

Convidado a tomar parte na parca ceia, ele sentou-se, comeu com boa vontade, e, depois de se levantarem da mesa, pôs em ação quanto podia para desviar Arabela de casar-se com Gil Mendonça, e aceitar a sua mão; pretendeu chamar ao seu partido os pais da moça, dando-lhes conta das suas imensas riquezas, e ganhar o mesmo Gil Mendonça, apelando para a sua generosidade, dizendo-lhe que, se ele sinceramente amava Arabela, devia sacrificar o seu amor para vê-la feliz na elevada posição que se lhe oferecia.

Os pais de Gil Mendonça ficaram duvidosos; os de Arabela inclinados a favor de D. Rui Vaz, porém calados, porque tinham sua filha na conta de muito prudente e sábia, pensavam que tudo quanto ela fazia era somente o que devia ser feito.

Gil Mendonça, silencioso e com os braços cruzados, esperava frio e impávido a resposta de Arabela.

— Sr. D. Rui Vaz, disse Arabela, eu sou reconhecida aos seus extremos; e quero provar que não os desmereço: a mulher que esquece o pobre a quem ama, pelo rico a quem apenas estima, tem coração que com dinheiro se compra?

— Oh! não... bradou o fidalgo.

— E o coração da mulher, prosseguiu a moça, deve ser tesouro sagrado, que nunca se venda, nem vender-se possa, e que só se troque por outro coração igual a ele. Sr. D. Rui Vaz, eu vos dedico a minha estima; Gil Mendonça, tu és o dono do meu amor.

— E tu, Gil Mendonça, disse o fidalgo, tu que dizes?...

— O que ela disse, respondeu o rústico.

— Pois bem, tornou Rui Vaz; pois bem. Gil Mendonça, eu dou-te metade das minhas riquezas, armar-te-ei cavaleiro, ofereço-te duas das minhas vilas, um dos meus castelos e o mais rico dos meus palácios; mas em troca de tudo isso, tu que és dono dos amor de Arabela, cede-mo.

— Vale mais, Sr. D. Rui Vaz, o coração de Arabela.

— Pois tudo, Gil Mendonça, tudo o que é meu... dou-te, tudo...

— Ainda é pouco.

— Oh!... dize! pois com que se pode comprar esse amor que eu aspiro, e a posse daquela moça?...

O popular sacudiu a cabeça friamente, como quem dizia:

— O amor nem se compra, nem se vende.

— E eles nem pensam no futuro daquela linda moça!... exclamou o fidalgo pegando no chapéu. Gil Mendonça! pobre Gil Mendonça! que darás tu por herança ao filho de Arabela?... oh! pobreza!... sempre pobreza!...

(continua...)

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