Por Euclides da Cunha (1909)
Assim vai desbravando-se a região bravia. Varejadas as redondezas, mortos ou escravizados num raio de poucas léguas os aborígenes, os caucheiros agitam-se febrilmente na azáfama estonteadora. Em alguns meses ao lado do primitivo tambo multiplicam-se outros; a casucha solitária transmuda-se em amplo barracón ou embarcadero ruidos; e adensam-se por vezes as vivendas em caseríos, a exemplo de Cocama e Curanja, à margem do Purus, a espelharem, repentinamente, no deserto, a miragem de um progresso que surge, se desenvolve e acaba num decênio. Os caucheiros ali estacionam até que caia o último pé de caucho. Chegam, destroem, vão-se embora. Nada pedem, em geral, à terra, à parte exíguas plantações de iúcas e bananas, a que se dedicam os índios domesticados. A única agricultura regular, embora diminuta, que se observa no Alto-Purus, para lá das últimas barracas dos nossos seringueiros, e a do algodão, dos campas aldeados, que até nisto delatam a independência nativa: colhendo, cardando, fiando, tecendo e pintando as cushmas de que se revestem, e descem-lhes dos ombros até aos pés, com o feitio de longas togas grosseiras. Assim, entre os estranhos civilizados que ali chegam de arrancada para ferir e matar o homem e a árvore, estacionando apenas o tempo necessário a que ambos se extingam, seguindo a outros rumos onde renovam as mesmas tropelias, passando como uma vaga devastadora e deixando ainda mais selvagem a própria selvageria - aqueles bárbaros singulares patenteiam o único aspecto tranqüilo das culturas. O contraste é empolgante. Seguindo do povoado campa de Tingoleales para o sítio peruano de Shamboyaco, perto da foz do Rio Manuel Urbano, o viajante não passa, como a princípio acredita, dos estádios mais primitivos aos mais elevados da evolução humana. Tem uma surpresa maior. Vai da barbaria franca a uma sorte de civilização caduca em que todos os estigmas daquela ressaltam, mais incisivos, dentre as próprias conquistas do progresso. Aborda a estância peruana; e nas primeiras horas encanta-o o quadro de uma existência movimentada e ruidosa. A vivenda principal e as que se lhe subordinam, arruadas alguma vez à maneira de pequenas vilas, erigem-se sempre num ponto bem escolhido a cavaleiro do rio; e a despeito de se construírem exclusivamente com as folhas e estípites da paxiúba — que é a palmeira providencial da Amazônia — são em geral de dois andares e têm na elegância das linhas e nas varandas desafogadas, que as circuitam, uma aparência de todo contraposta ao aspecto tristonho dos chatos barracões dos nossos seringueiros.
No terreiro amplo, acabando na crista da barranca caindo em talude vivo sobre o rio, uma agitação animadora e álacre; carregadores possantes passando em longas filas sucessivas arcados sob as pranchas de caucho; administradores ativos rompendo das portas do andar térreo e correndo para toda a banda, para os armazéns refertos de conservas ou para as tendas fulgurantes, onde estridulam malhos e bigornas, reparando as achas e machetes.
Embaixo no embarcadero, coalhado das ubás velozes, onde as tanganas fisgam vivamente os ares, vozeia a algazarra dos práticos e proeiros, e espalmamse nas águas as balsas feitas exclusivamente de caucho, formando-se sobre o "caminho que marcha" a "mercadoria que conduz os condutores". E em todo o correr da ladeira que dali serpeia até em cima, as saias vermelhas e os corpinhos brancos das cholas graciosas de Iquitos, passando e entrecruzando-se, num embandeiramento festivo...
O viajante atravessa os grupos agitados e as surpresas não cessam. Galga a escada que o leva à varanda da frente, para onde dão os principais repartimentos da vivenda. No alto o caucheiro - um triunfador jovial e desempenado sobre os rijos tacões das suas botas de mateiro - recebe-o ruidosamente, abrindo-lhe de par em par as portas numa hospitalidade espetaculosa e franca. E completa-se o encanto. Extinta a noção do tempo, ou do longo espaço de milhares de quilômetros gastos no sulcar os rios solitários para atingir aquela estância longínqua, o forasteiro insensivelmente se imagina em algum entreposto comercial de qualquer cidade da costa. Nada lhe falta ao engano: o longo balcão de pinho abarreirando a sala principal e cerrando o recinto, onde se aprumam as prateleiras atestadas de mercadorias; os empregados solícitos obedientes às ordens do guarda-livros corretíssimo, que o cumprimentou ao entrar e volveu logo à sua escrita, acurvado sobre a secretária inclinada; o copo de cerveja que lhe oferecem, ao invés da chicha tradicional; a folhinha artística a um lado, marcando o dia certo do ano; os jornais de Manaus e de Lima; e até — o que é inverossímil — a tortura requintada e culta de um fonógrafo, gaguejando, emperradamente, naquele fundo de desertos, uma ária predileta de tenor famoso...
Mas toda esta exterioridade surpreendente desaparece ante uma observação permitindo ao visitante ver o que lhe não mostra o seu garboso hospedeiro. A desilusão assalta-o então de chofre; e é impressionadora. Aquele reflexo de vida superior não vai além da escassa nesga de chão, de menos de um hectare, constrita entre a mata ameaçadora e próxima, ao fundo, e a barranca despenhada rio adiante.
Fora deste falso cenário, o drama real que se desenrola é quase inconcebível para o nosso tempo.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.