Por Lima Barreto (1911)
Quando de todo veio a noite, o largo tomou outro aspecto. Eram só mulheres, moças, as duas, as três, às quatro. Eram modistas, eram as costureiras. Quase todas, traindo o ofício no apuro do vestuário, fazendas pobres, mas bem talhadas e provadas; e todas elas gárrulas, louçãs, contentes, como se não tivessem trabalhado doze horas e não trabalhassem. As retardatárias passaram e o largo ficou um instante vazio. Não vinham mais homens aos magotes, nem moças aos bandos, nem dos bondes desembarcavam levas de passageiros. Havia passeantes solitários, homens e mulheres. Paravam nas vitrines, demoravam-se no ponto dos bondes, sempre marchando vagarosamente como se esperassem alguém. Por vezes um deles se encontrava com uma delas, trocavam breves palavras e o caminho de casa era encontrado. A igreja se escondia na sombra e a s Escola Politécnica, muito alta, parecia dormir filosoficamente.
Lucrécio olhou o relógio e despediu-se dos companheiros. Não gostava daquela hora ali no largo, preferia-a na Avenida, onde sempre encontrava um conhecido ou outro que lhe oferecia de beber. De resto, precisava saber o “bicho” que dera no jogo noturno; e não convinha, se tivesse ganhado, que os outros soubessem. Passou em uma casa de “bookmaker” e verificou. Tinha ganhado no grupo. Eram vinte mil réis. Poderia levar alguma coisa para casa. De que servia? Tinha tanta dívida... O melhor era aproveitar a “sorte”, a “maré”. Jantaria primeiro e depois arriscaria o restante. Tomou uma “abrideira”, um cálice de cachaça; e procurou um hotel onde jantou vagarosamente, e com apetite. Acabado o jantar, adquiriu um charuto barato e deu umas voltas e, dentro em pouco, arriscava as sobras no jogo. Houve alternativas de ganho e de perda. Por fim ganhou, e, à uma hora, estava em casa.
Lucrécio morava na Cidade Nova, naquela triste parte da cidade, de longas ruas quase retas, com uma edificação muito igual de velhas casas de rótula, porta e janela, antigo charco, aterrado com detritos e sedimentos dos morros que a comprimem, bairro quase no coração da cidade, curioso por mais de um aspecto.
Muito baixo e comprimido entre as vertentes e contrafortes de Santa Teresa e a cinta de colinas graníticas - Providência, Pinto, Nheco — ainda hoje as chuvas copiosas do estio teimam em encontrar depósito naquela bacia, transformam as vias públicas em regatos barrentos, saltam dos leitos das ruas, invadem, por vezes, as casas; os móveis bóiam e saem pelas janelas ainda boiando, para se perderem no mar, ou irem ao acaso encontrar outros donos.
Irregular como é o Rio, não se pode dizer que fique bem ao centro da cidade; é, porém, ponto obrigado de passagem para a Tijuca e adjacências, S. Cristóvão e subúrbios.
O velho “aterrado” que conheceu atribulações de fidalgos em caminho do beija-mão de D. João VI, é hoje o Mangue, com asfalto e meios-fios; mas, de quando em quando, manhosamente, o canal enche desde que o céu queira, para lembrar as suas origens aos que passam por elas nos bondes e nos automóveis.
A Cidade Nova não teve tempo de acabar de levantar-se do charco que era; não lhe deram tempo para que as águas trouxessem das alturas a quantidade necessária de sedimento: mas ficou sendo o depósito dos detritos da cidade nascente, das raças que nos vão povoando e foram trazidas a estas plagas pelos negreiros, pelos navios de imigrantes, à força e à vontade. A miséria uniu-as ou acamou-as ali; e elas lá afloram com evidência. Ela desfez muito sonho que partiu da Itália e Portugal em busca de riqueza; e, por contrapeso, muita fortuna se fez ali, para continuar a alimentar e excitar esses sonhos.
Para os imitadores, nas “revistas” de ano e nos jornais, de velhos e obsoletos folhetins, a população da Cidade Nova é quase que inteiramente de cor, no que se enganam e em tudo o que mais se segue.
A Cidade Nova de França Júnior já morreu, como já tinha morrido a do Sargento de Milícias” quando França escreveu.
As mesmas razões que levaram a população de cor, livre, a procurá-la, há sessenta anos, levou também a população branca necessitada de imigrantes e seus descendentes, a ir habitá-la também.
Em geral, era e ainda é, a população de cor, composta de gente de fracos meios econômicos, que vive de pequenos empregos; tem, portanto, que procurar habitação barata, nas proximidades do lugar onde trabalha e veio daí a sua procura pelas cercanias do aterrado; desde, porém, que a ela se vieram juntar os imigrantes italianos ou e outras procedências, vivendo de pequenos ofícios, pelas mesmas razões eles a procuraram.
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.