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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

Um deles era o Alípio, um tipo curioso de rapaz que, conquanto pobre e ter amor à cachaça, não deixava de ser delicado e conveniente de maneiras, gestos e palavras. Tinha um aspecto de galo de briga; entretanto, estava longe de possuir a ferocidade repugnante desses galos malaios de rinhadeiro, não possuindo — convém saber-se — nenhuma. Sem ser instruído, não era ignorante; mas era inteligente e curioso de invenções e aperfeiçoamentos mecânicos.

O velho Valentim era um outro freqüentador da venda, muito curioso e pitoresco. Português, com muito mais de sessenta anos, não deixava de trabalhar, chovesse ou fizesse sol. Era chacareiro e, devido talvez ao ofício, que ele o devia exercer há bem perto de quarenta anos, tinha o corpo curvado de modo interessante. Não se sabia se era para trás ou para diante; fazia uma espécie de S, em que faltassem as extremidades.

Contava longos "casos" que não se acabavam mais, especialmente o João de Calais — como ele pronunciava — , pontilhando a sua longa e enfadonha narração, com rifões portugueses de uma graça saborosa e uma filosofia saloia. Era o que se aproveitava da sua conversa.

Aparecia, também, em certas ocasiões, o Leonardo Flores, poeta, um verdadeiro poeta, que tivera o seu momento de celebridade no Brasil inteiro e cuja influência havia sido grande na geração de poetas que se lhe seguiram. Naquela época, porém, devido ao álcool e desgostos íntimos, nos quais predominava a loucura irremediável de um irmão, não era mais que uma triste ruína de homem, amnésico, semi-imbecilizado, a ponto de não poder seguir o fio da mais simples conversa. Havia publicado cerca de dez volumes, dez sucessos, com os quais todos ganharam dinheiro, menos ele, tanto assim que, muito pobremente, ele, mulher e filhos agora viviam com o produto de uma mesquinha aposentadoria sua, do governo federal.

Raro era sair, porque a mulher punha todo o esforço em que ele o não fizesse. Mandava buscar parati, comprava-lhe os jornais de sua estimação, a fim de que ele permanecesse em casa. As mais das vezes, ele obedecia; mas, em algumas raras, recalcitrava, saia, com quinhentos réis em cobre, na algibeira, bebia aqui, ali, dormia debaixo das árvores das estradas e ruas pouco freqüentadas, e, mesmo, quando o delírio alcoólico o tornava forte, despia-se todo e gritava heroicamente numa doentia e vaidosa manifestação de personalidade:

— Eu sou Leonardo Flores.

O povo sabia vagamente que ele tinha celebridade. Chamava-o — o poeta. No começo, caçoava com ele, mas ao saber de sua reputação, deram em cercá-lo de uma piedosa curiosidade.

— Um homem desses acabar assim — que castigo! — dizia um.

— É "cosa" feita! Foi inveja da "inteligença" dele! — dizia uma preta velha. — Gentes da nossa "cô" não pode "tê inteligença"! Chega logo os "marvado" e lá vai reza e "fetiço", "pá perdê" o homem — rematava a preta velha.

Aparecia um circunstante mais prático na sua piedade, vestia novamente o poeta e levava-o para a casa.

Era justamente a ele, Leonardo Flores, que o doutor Meneses procurava, quando, naquela manhã de dia santo e não feriado, entrou na venda de "Seu" Nascimento, mancando, devido à inchação das pernas, e com as suas barbas brancas, abundantes, mas não cerradas, aparadas e tratadas à imitação do nosso último Imperador.

O doutor Meneses galgou a soleira da porta com esforço; parou um instante, logo que se viu no interior da venda, pôs as mãos nas cadeiras e respirou com força. Após os cumprimentos, perguntou:

— O Flores não tem aparecido?

— Há muito tempo que não vem aqui — fez o "Seu" Nascimento do interior do balcão.

— Fui à casa dele, e disse-me a mulher que havia saído... Preciso tanto dele...

Ao dizer isto, sentava-se no tamborete que o caixeiro lhe abrira e o pusera onde ele estava, o dentista.

Descansou mais um pouco, sorveu mais uma forte dose de ar e, dirigindo-se ao Alípio, perguntou:

— Como vai você, Alípio?

Só estavam na venda Alípio e o velho Valentim, este em pé, encostado ao umbral de uma porta lateral; e aquele, sentado, lendo um jornal.

Alípio respondeu:

— Vou bem; não tão bem como o senhor, que anda agora em companhia de

"almofadinhas" artistas.

— Como? — fez espantado o dentista particular.

— É o que dizem. Corre aqui que o senhor está toda a noite com o mestrevioleiro Cassi e vários companheiros, num botequim do Engenho Novo.

— É verdade. São todos rapazes decentes, que...

— Então, o Cassi, este é de colete?

— Dizem — interveio "Seu" Nascimento — que esse rapaz...

— É um bandido — acudiu Alípio. — Ele merecia mais do que cadeia; merecia ser queimado vivo. Tem desgraçado mais de dez moças e não sei quantas senhoras casadas.

— Isto é calúnia! — protestou Meneses. — Fala-se muito por aí...

— Que o quê! Os processos têm corrido, os jornais têm publicado, e ele arranja meios e modos, para livrar-se das penalidades e lançar na desgraça moças e senhoras — confirmou Alípio.

— Como ele consegue isso? — indagou "Seu" Nascimento.

(continua...)

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