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#Romances#Literatura Brasileira

O Homem

Por Aluísio Azevedo (1887)

— Não faz mal...

— Sentirás vertigens antes de chegar ao fim!

— Mas eu quero ir!

— Deixa-te disso.

— Ora que me hão de contrariar em tudo!

— É que é uma imprudência sem nome o que desejas fazer, minha filha!

Já amuada, soltou-se do braço do pai e correu para os lados por onde se subia à montanha.

— Espera aí! gritou o velho tentando alcançá-la! espera aí, caprichosa! Eu te acompanho!

A caprichosa havia galgado o primeiro lance de pedra.

A subida foi penosa.

Ah! o caminho era muito estreito, irregular e coberto de calhaus. O pé às vezes não encontrava resistência, porque o cascalho rodava debaixo dele.

Mas subiam. Magdá, sem querer dar parte de fraca, segurava-se arquejante ao braço do pai; este mesmo, porém, sabe Deus com que heroísmo conseguia não perder o equilíbrio.

— Vamos adiante! Vamos adiante! Dizia ela, quase sem fôlego.

— Descansemos um pouco, minha filha.

Não, ela não descansaria, enquanto não alcançasse o morro. Felizmente o caminho em cima era quase plano e com pequeno esforço chegava-se daí ao lugar onde trabalhavam os quatro homens. Mais um arranco, e lá estariam.

Afinal conseguiram chegar. Mas, ah! quando a pobre Magdá, toda trêmula e exausta de forças, já no tope da pedreira, defrontou com o pavoroso abismo debaixo de seus pés, soltou um grito rápido, fechou os olhos, e teria caído para trás, se o Conselheiro não lhe acode tão a tempo.

— Magdá, minha filha! Então! então!

Ela não respondeu.

— Está aí! está aí o que eu receava! Lembrar-se do subir a estas alturas!... E agora a volta...?

— Pode voscência ficar tranqüilo por esse lado, arriscou um dos cavoqueiros, que se havia aproximado, a coçar a cabeça. — Se voscência quiser, eu cá estou para por esta senhora lá em baixo, sem que lhe aconteça a ela a menor lástima.

— Ainda bem! respondeu S. Ex. com um suspiro de desabafo.

O trabalhador que se ofereceu para conduzir Magdá era um mocó de vinte e tantos anos, vigoroso e belo de força. Estava nu da cintura para cima e a riqueza dos seus músculos, bronzeados pelo sol, patenteava-se livremente com uma independência de estátua. Os cabelos, empastados de suor e pó de pedra, caíram-lhe sobre a testa e sobre o pescoço, dando-lhe uma satírica feição de sensualidade ingênua.

— Vamos! Vamos! Apressou o Conselheiro, entregando-lhe a filha.

O rapaz passou um dos braços na cintura de Magdá e com o outro a suspendeu de mansinho pelas curvas dos joelhos, chamando-a toda contra o seu largo peito nu. Ela soltou um longo suspiro e, na inconsciência da síncope, deixou pender molemente a cabeça sobre o ombro do cavoqueiro. E, seguidos de perto pelo velho, lá se foram os dois, abraçados, descendo, pé ante pé, a íngreme irregularidade do caminho.

Era preciso toda atenção e muito cuidado para não rolarem juntos; o moço fazia prodígios de agilidade e de força para se equilibrar com Magdá nos braços. De vez em quando, nos solavancos mais fortes, o pálido e frio rosto da filha do Conselheiro roçava na cara esfogueada do trabalhador e tingia-se logo em cor de rosa, como se lhe houvera roubado das faces uma gota daquele sangue vermelho e quente. Ela afinal teve um dobrado respirar de quem acorda, e entreabriu com volúpia os olhos. Não perguntou onde estava, nem indagou quem a conduzia; apenas esticou nervosamente os músculos num espreguiçamento de gozo e estreitou-se em seguida ao peito do rapaz, unindo-se bem contra ele, cingindo-lhe os braços em volta do pescoço com a avidez de quem se apega nos travesseiros aquecidos para continuar um sono gostoso e reparador. E caiu depois num fundo entorpecimento, bambeando as pálpebras; os olhos em branco, as narinas e os seios ofegantes; os lábios secos e despregados, mostrando a brancura dos dentes. Achava-se muito bem no tépido aconchego daquele corpo de homem; toda ela se penetrava do calor vivificante que vinha dele; toda ela aspirava, até pelos poros, a vida forte daquela vigorosa e boa carnadura, criada ao ar livre e quotidianamente enriquecida pelo trabalho braçal e pelo pródigo sol americano. Aquele calor de carne sã era uma esmola atirada à fome do seu miserável sangue.

E Magdá, sentindo no rosto o resfolegar ardente e acelerado do cavoqueiro, e nas carnes macias da garganta o roçagar das barbas dele, ásper

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