Por Aluísio Azevedo (1895)
Aquele espetáculo de tamanha felicidade havia fatalmente de amargurá-lo. Ainda se Teobaldo, possuindo muitos dotes fosse ao menos feito como ele, o Coruja; ainda se fosse miserável ou estúpido, - vá! Mas não! Teobaldo era lindo, era rico, era talentoso e, além de tudo - amado! amado por tantas criaturas e, principalmente, por aquela adorável mãe, cujos beijos e cujas lágrimas eram o bastante para lhe adoçar todos os espinhos da vida.
E André, assim considerando, via-se perfeitamente, tinha-se defronte dos olhos, como se estivesse em frente a um espelho. Lá estava ele - com a sua disforme cabeça engolida pelos ombros, com o seu torvo olhar de fera mal domesticada, com os sobrolhos carregados, a boca fechada a qualquer alegria, as mãos ásperas e curtas, os pés grandes, o todo reles, miserável, nulo!
O desgraçado, porém, em vez de dar ouvidos a estes raciocínios, voltou-se todo para uma voz íntima, uma voz que também lhe vinha do coração, mas toda brandura e humildade.
E essa voz lhe dizia:
- Pois bem, miserável! ingrato! tu, que és órfão; tu que não tens onde cair morto; tu, que és feio, que és o Coruja; tu, que não tens nenhum dote brilhante, que não és distinto, nem espirituoso, nem possuis mérito de espécie alguma; tu, mal agradecido! - és amado por Teobaldo, que dispõe de tudo isso à larga e que te faz penetrar sua sombra no santuário de corações onde nunca penetrarias sem ele.
E o Coruja, saindo da sala para respirar lá fora mais à vontade, pôs-se a caminhar, a caminhar à toa entre as sombras das árvores, sentindo-se arrebatado por um inefável desejo de ser bom, um desejo de ser eternamente grato a quem, possuindo todas as riquezas, o escolhia para seu íntimo, para seu irmão - a ele, que nada possuía sobre a terra.
Ser "bom"!
Mas seria isso humildade ou seria ambição e orgulho?
Quem poderá afirmar que aquele enjeitado da natureza não se queria vingar da própria mãe fazendo de si um monstro de bondade? Sim. Vingar-se, fugindo da esfera mesquinha dos homens, fugindo às paixões, às pequenas misérias mundanas e procurando refugiarse no próprio coração, ainda receoso de que o céu, cúmplice da terra, lhe negasse também a graça de um abrigo.
Ou quem sabe então se o ambicioso, vendo-se completamente deserdado de todos os dotes simpáticos a que tem direito a sua espécie, não queria supri-los por uma virtude única e extraordinária - a bondade?
A bondade, esse pouco!
Visionário! Não se lembrava de que a bondade, á força de ser esquecida e desprezada, converteu-se em uma hipótese ou só aparece no mercado social em pequenas partículas distribuídas por milhares de criaturas; como se dessa heróica virtude houvesse apenas uma certa e determinada porção desde o começo do mundo e que, de então para cá, à medida que se multiplicaram as raças. ela se fora dividindo e subdividindo até reduzir-se a pó.
SEGUNDA PARTE
I
Dois anos depois do casamento de D. Geminiana, Teobaldo e André chegaram ao Porto da Estrela acompanha' dos por três pajens e mais por um moleque, o Sabino, que vinha para ficar ao serviço daquele durante o tempo dos estudos.
Desmontaram cobertos de pó e derreados por vinte dias de viagem a cavalo. Foi recebelos à boca do caminho o Sampaio, um negociante de meia idade, a quem Emílio recomendara os rapazes.
- Então o barão não quis dar um pulo até a corte? perguntou a Teobaldo o negociante, depois de fazer descarregar o bagageiro e providenciar para que o moleque se não extraviasse.
- Não lhe foi possível, respondeu o interrogado. Não nos pode acompanhar, a despeito do empenho que fazia nisso. Minha mãe está doente e ele não quis deixá-la sozinha.
- Sozinha, não; ficaria com a irmã.
- Já não mora conosco. Seguiu com o marido para Tijupá.
- E o que sente a senhora sua mãe é coisa de cuidado?
- Diz o velho que sim; um pouco de cuidado.
- Qual moléstia?
- Não sei. Uma complicação. Nervoso principalmente.
- Coitada! E já está assim há muito tempo?
- Há mais de ano. Foi isso que retardou a minha vinda para a corte.
- E este moço é o tal que seu pai também me recomenda?
- É, confirmou Teobaldo, apresentando o amigo. Bem! disse o negociante - Aí está a diligencia. Podemos ir. As bagagens já seguiram adiante. Os três encarapitaram-se no carro e tomaram a direção da cidade.
Teobaldo estalava de impaciência por cair nesse burburinho da corte, que de longe o atraía em silêncio, mas confessou-se prostrado pela viagem. Precisava desfazer-se de toda aquela roupa, meter-se num banho e estender--se ao comprido numa boa cama. - Tenho pó até dentro dos miolos! exclamou ele, a sacudir o seu poncho de brim enxovalhado. Hei de ver-me limpo e ainda me parecerá um sonho!
- E ter um bocado de paciência. Daqui a nada estaremos em casa.
- Onde mora?
- Na rua de S. Bento.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.