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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Tu eras bela, livre venturosa, romanesca; ele, moço extravagante e sedutor. Viu­te, falou­te em amor, estremeceu em pensar nos teus beijos... talvez até mesmo resolvesse casar contigo. Mas tu lhe deste liberdade, lhe aceleraste os desejos, lhe fustigaste o arrojo, lhe proporcionaste ocasiões. Ele nada mais fez do que aproveitar­se de tudo isso. A verdadeira culpada foste tu!... pelo menos, grande parte da responsabilidade deves atirar para o teu temperamento, para o teu sangue, para a tua fraqueza! Para que sucumbiste?! Acaso não tomaram alguma parte nisso os reclamos da tua carne e as alucinações do teu espírito?! Ele excitou­te com os mistérios voluptuosos de um passeio ao campo, longe do teu meio social, por entre a sombra balsâmica das árvores, ao rumorejar das folhas, ao arrular das aves, ao sussurrar de uma cascata; estimulou­te com um almoço de boêmia, cheio de malícia, cheio de riso e cheio de amor! Tu bebeste, fumaste, sonhaste, riste, e afinal... amaste. Para isso tudo contribuiu — o céu o ar, os murmúrios da natureza, as espumas do champanha, os perfumes do cigarro, a riqueza do teu sangue e a diabrura dos vinte anos. Queres agora criminá­lo exclusivamente! Não! Seria uma injustiça!

Violante ergueu­se, sacudiu com o pé a cauda do vestido, e disse com toda a calma:

— Contudo, hei de matá­lo!

— Tu o amas, desgraçada! exclamou Gaspar encolerizado.

Violante não deu resposta, recolheu­se à sua alcova, fechando a porta com violência.

Gaspar atirou­se a uma poltrona e segurou a cabeça com as duas mãos.

— Dá licença!... disse da porta uma voz. Era de Paulo Mostella.

IX

MOMENTO DA VINGANÇA

Gaspar correu à porta da sala e atravessou­se defronte de Paulo.

— Desculpe, disse ele, mas não entre! Peço­lhe que não entre!

— Como está sobressaltado! observou o outro parando no corredor. Vinha fazer­lhe uma visita...

Gaspar deitou o chapéu, e segurou Paulo pela mão:

— Saiamos! Saiamos! Não repare não o fazer entrar, mas...

— Sei o que são estas cousas... também já fui solteiro! Descanse que não serei indiscreto.

— Não é por isso; mas é que... Desçamos, sim? Pelo caminho dir­lhe­ei o que é...

— Bem me pareceu que havia lá dentro algum contrabando!

— Efetivamente lá está alguém que não pode ser visto...

— Maganão! Não o levarei a mal. Em todo caso, precisava falar­lhe hoje.

E os dois saíram conversando, enquanto Violante atirada sobre a cama, soluçava.

Arrancaram­na desse estado duas pancadinhas sistemáticas na porta. Ela ergueu­se e correu a abrir era o toque de um dos espiões.

— Então o que há de novo!... perguntou a oriental, procurando dissimular a comoção.

— O homem passará sozinho, amanhã às quatro horas da madrugada, pela ponte de Santo Antônio. O lugar é magnífico, e a ocasião não pode ser melhor! Atira­se com o corpo ao mar, depois de sangrado...

— Donde virá ele a essas horas?

— Não vem; vai tomar o trem para uma viagem.

— Bem! Retire­se, mas não se afaste; fique aí fora até que o chame. Você tem de acompanhar­me; irei infalivelmente!

— Ordena mais alguma coisa?...

— Não.

O homem retirou­se, e Violante recolheu­se à alcova, para rezar. Acometeu­a um grande fervor religioso.

Quando Gaspar voltou, às dez horas, ainda a encontrou nas suas orações. Acendeu o candeeiro, e pôsse a ler. Depois foi à janela respirar um pouco de ar, e viu na rua, encostado ao lampião, o homem que falara com Violante. Desceu sem ruído ao encontro dele.

— Então?... disse­lhe.

— A senhora mando­me esperar...

— Bem! resmungou Gaspar, disfarçando; o encontro é no mesmo lugar?

— Sim, senhor, na ponte de Santo Antônio. O homem passa às quatro da madrugada...

Gaspar afastou­se, afetando calma, mas levava uma grande agonia no coração. Correu à casa da irmã. Esta preparava as malas do marido.

— Você a estas horas, mano?

— Sim. Onde está Paulo? Ainda não voltou? Estive com ele até às nove horas...

— É! ele me falou de que te ia procurar.

— Diz­me uma cousa, Virgínia: teu marido sai infalivelmente esta madrugada?

— Infalivelmente. Vai a uma viagem de negócio. Por quê?

— É preciso que ele não vá!

— Por quê? Tu assustas­me!

— Porque o querem matar. Presta atenção ao que te digo; isto é um segredo perigoso, que não deve transparecer: há alguém que tenciona matá­lo esta madrugada, na ponte de Santo Antônio. Só eu sei disso, além dos encarregados do crime; por conseguinte, se descobrires alguma cousa do segredo, só eu o pagarei pela tua indiscrição. O resto fica por tua conta! Se não quiseres arriscar a vida de teu marido, evita que ele saia esta madrugada!...

Virgínia ficou aflita.

— Adeus, disse Gaspar! Faze o que te digo!

— Mas, atende, Gaspar. E se eu nada puder conseguir? Esta viagem é muito urgente. Trata­se de salvar tudo o que possuímos. Paulo não me atenderá com certeza! valha­me Deus!

— Mas se te digo que se trata de salvar­lhe a vida!

(continua...)

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