Por Bernardo Guimarães (1883)
Conrado voltou para a casa summamente contrariado e afflicto com as formaes e terIninantes negativas de Moraes. Não obstante o tom de seguridade com que fallára a este, não deixava de nutrir serios receios a respeito da possibilidade de provar a condição livre de Rozaura. A sua principal esperança repousava sobre a existencia dessa mulher, que a tinha reduzido á escravidão, e da qual espeava arrancar com promessas ou ameaças a confissão de seu crime. As outras provas que podia adduzir, não constituião sinão presumpções, em verdade mui vehementes, mas que podião ser contestadas e infirmadas vantajosamente. O Signal que Rozaura tinha no peito, bem podia ser uma coincidencia devida ao acaso, e demais allegadD por uma simples escrava pouco valor podia ter, até mesmo poderia ser considerado como mero embuste de sua invenção para favorecer sua companheira de captiveiro. A semelhança que se notava entre as feições de Adelaide e de Rozaura, era uma circumstancia, em que nem de leve pretendia tocar, uma vez que pudesse obter o reconhecimento da liberdade de sua filha sem declarar sua maternidade, e por consequencia sem comprometter a reputação de Adelaide. O facto de ter nascido uma creança escrava no mesmo dia e na mesma casa, em que morria uma engeitada tamioem não autorizava a assacar contra uma pobre velha a imputação do hediondo crime de ter substituido pela engeitada a creança morta. Era preciso um depoimento formal de qualquer testemunha insuspeita, que confirmasse as fortes presumpções resultantes de todas estas circumstancias . A unica pessoa, talvez, que á excepção de Nha-
Tuca, poderia depor sobre o facto com plena sciencia e consciencia, era a supposta mãe de Rozaura ; mas essa ha muito tempo já não existia.
Conrado avaliava em seu espirito todos esses prós e contras, e dando talvez a estes maior peso o valor do que realmente mereciño, aflli— gia-se em extremo mas não sem fundamento, porque si já não existisse a velha Nha-Tuca, o negocio do reconhecimento de Rozaura como livre de nascimento difficilmente poderia ser encaminhado com esperança de exito feliz. Ora nada era mais natural e mesmo provavel do que o facto de já ser fallecida aquella mulher, que, segundo lhe dissera Lucinda, ha quatorze annos já era velha e adoentada,
Emquanto Conrado espera com a mais viva impaciencia a hora em que a velha escrava tem de vir dar conta de sua commissão, acompanhemo-la nos passos que deo para desempenhal-a.
CAPITULO X
Estará viva ou não ?
Emquauto Conrado sofrego e ancioso dava estes passos na cidade, não menos solicita e inquieta andava a boa Lucinda lá pelos lados da freguezia de Nossa Senhora do O. Nessa manhã, como promettera, foi a Sancta Iphigenia, onde ouvio missa ás nove horas, e dahi seguio em marcha a mais accelerada que lhe foi possivel, pela estrada de Jundiahy. Não tomou pelo caminho da chacara do major; nada tinha lá que fazer; continuou direito pela estrada real até a altura, que era bem conhecida, onde existia a casa de Nha-Tuca. Não é possivel explicar qual foi o seu espanto e consternação, quando ao chegar alli não avistou sinão ruinas. Da casa não restavão sinão os esteios carbonisados e algumas paredes derruidas; o
tecto tinha desabado, as cercas estavão arrombadas, e o abandono, a solidão e a tristeza reinavam naquelle sitio, que outróra fôra uma vivenda tão ruidosa, alegre e animada. A casa de Nha-Tuca era erma tapéra, onde não se via viva alma, a quem se pudesse dirigir qualquer pergunta. A tal espectaculo um frio e angustioso desalento se apoderou do coração de Lucinda, que quasi desfalleceo. Sentou-se á l)eira da estrada em frente das ruinas, e poz-se a reflectir. Lembrou-se de que a uns quinhentos passos mais ou menos pela estrada adiante havia tambem á beira do caminho a casa do um francez, que tinha negocio. Era o vizinho mais proximo de Nha-Tuca, e devia saber qual tinha sido o destino dessa mulher. A casa tinha sido queimada, não havia duvidar; mas isso não queria dizer que a dona tambem já não existisse. Lucinda reanimou-se de um resto de esperança, levantou-se e poz-se a caminhar para diante. Como era domingo, á porta da taverna do francez havia numeroso concurso de gente. Erão de dez para onze horas; grande numero de caipiras da vizinhança, que já tinhão ouvido missa, uns na cidade, outros na capella de Nossa Senhora do Ó, alli se achavào a palestrar e a molhar a guela para empurrar o domingo, conforme a phrase vulgar.
— Bom ! — murmurou Lucinda comsigo. — No meio de tanta gente é impossivel que não haja alguem que me saiba dizer o que é feito de Nha-Tuca.
Dirigio-se pois resolutamente para a venda, comprou uma quitanda, bebeo um golo de vinho para cobrar alento, e depois, dirigindose aos circumstantes com uma hesitação e receio facil de comprehender-se, mas difficil de explicar-se :
— Mecês não me saberão dizer, — perguntou ella, — que fim levou uma mulher velha, que morava aqui para atráz, chamada Nha— Tuca
A companhia, que alli se achava, trazia já a cabeça bastante aquecida pelos frequentes tra— gos, com que no correr da conversação ião molhando a palavra. A pergunta de Lucinda portanto, em vez de obter resposta, foi rccebida entre mil risadas e apodos zombeteiros, que confundirão e desorientarão completamente a pobre preta.
— He ! ha! minha tia ! pois tu ainda perguntas por essa brucha esconjurada! dizião
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.