Por Franklin Távora (1876)
Liberato propôs a venda das terras a mais de um morador do lugar, mas todos se escusaram a comprá-las. De que valiam elas em realidade, com serem tão boas, estando sujeitas, como estavam, àquela omnímoda servidão ? Não tendo para onde ir, nem outro algum recurso, resignou se Liberato à sua sorte, e botou para Deus, juiz supremo, que dá provimento a todos os recursos interpostos com justo fundamento. Era de índole pacífica, tinha mulher e filhos, não queria rixas com ninguém, e muito menos as queria com matadores de profissão.
Quando lhe aconselhavam em família, a mulher, ou os filhos, para que reagisse contra os ladrões, ele respondia sempre com estas palavras, ou com outras equivalentes:
— Deus me livre. Se os brancos e o rei não podem com eles, eu, que sou negro, é que hei de poder ? Vamos passando assim mesmo conforme Deus nos ajudar. Pode se dizer que vivo trabalhando para eles. Paciência! Um dia isto há de ter fim, ou com a vida, ou com a morte. Será quando Deus quiser.
Liberato não procedia deste modo por fraqueza, mas por boníssimo discernimento. Ele era até valente por origem. Vinha a ser neto ou bisneto de Henrique Dias, com cuja fama se gloriava. Do ilustre guerreiro lhe vinham por sucessão as terras que possuía nas proximidades do Monte das Tabocas, onde o negro herói conquistara brilho inescurecível para seu nome que ficou sendo uma das primeiras glórias da pátria. Mas bem estava vendo que não podia avantajar se a quadrilhas de ladrões e assassinos afeitos à prática de toda sorte de depredações.
Havia já muitos anos que ele vivia sem ter neste assunto outras idéias. Pouco a pouco se habituara a repartir o seu pelos ladrões. Esta partilha ele a considerava tão forçada, tão fatal, que, sempre que abria um novo roçado, ou encoivarava terras para algum novo partido de canas, dizia, entre gracejo e resignação:
— E preciso fazer mais acrescentando para que os meus vizinhos levem tudo, e eu não venha a ficar sem ter com que remir as minhas necessidades.
Estava Liberato um dia consertando uns covos para os meter em um poço onde os camarões saltavam em cardumes, quando, banhada em pranto, carpindo a sua desgraça lhe entrou pela porta a mulher de Gabriel.
— Mataram meu marido, Liberato. Estou viúva, e você já não tem seu irmão.
— Quem lhe contou isso, Aninha ? — perguntou o negro quase esmagado da dor que lhe trouxe a repentina e fúnebre nova. — Não é possível. Há de ser mentira.
Quem havia de matar Gabriel, que nunca se importou com os outros ?
— Desgraçadamente não é mentira, não. Eu soube de tudo. Foi o Cabeleira quem o matou. E o malvado aí vem com o pai, roubando e esfaqueando a quem encontram. Previna se, Liberato, que eles já devem estar na mata. Ai de mim ! Que desgraça, meu Deus ! Que será de mim sem Gabriel que era tão bom marido ?!
— E onde estou eu, Aninha ? Não chore. Eu ainda não creio neste conto. Mas se suceder a desgraça que você diz, nem por isso deverá desesperar, que os homens ainda não se acabaram na terra.
Seguiu se um longo pranto na casa do crioulo. Ao carpir de Aninha vieram juntar se as lamentações de Rosalina, mulher de Liberato e irmão da viúva.
Liberato passou três noites sem pregar os olhos, pensando consigo só. A dor acerba a que ele, sem dar amostras, talvez por prudência, mal tinha podido resistir com sobre humano esforço, veio despertar os longos ressentimentos e antigos desgostos que jaziam como arrefecidos no fundo do seu coração. Aqueles que cotidianamente o despojavam dos produtos do seu trabalho e da economia tinham lhe roubado uma vida preciosa. Quem lhe podia assegurar que eles não viessem mais tarde a tomar lhe a mulher, a tirar lhe a filha, a arrancar lhe a própria vida se ele se opusesse à sua vontade criminosa ?
Liberato refletiu maduramente sobre este grande assunto, e a cabo de três dias tomou a resolução que lhe pareceu melhor. Não se contava na distancia de três, ou quatro, ou dez, vinte léguas da povoação um só proprietário, lavrador, foreiro, almocreve ou morador que não tivesse queixas dos malfeitores, especialmente do Cabeleira que a todos excedia na petulância e fereza. Aqueles a quem faltavam motivos de ofensa pessoal tinham razão de sobra para quererem a dissolução do couto nas ofensas feitas pelos facinorosos aos parentes e amigos. Só uma população cansada de lutas sanguinolentas, e um governo que cuidava menos de proteger eficazmente a propriedade e a vida na colônia do que de adquirir grossas rendas para a metrópole, e riquezas para si próprio, poderiam sofrer bandos de sicários que, assim fortificados ao pé das famílias, roubavam impunemente bens, honra e vida.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.