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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Mutirão! mas eu não sei se todos os meus leitores saberão a significação desta palavra, que talvez não poderão encontrar em dicionário algum. Portanto é necessário defini-la.

É o mutirão um costume dos pequenos lavradores, ou da gente pobre dos campos, que vivem como agregados dos grandes fazendeiros e que não possuindo terra, e menos ainda braços para cultivá-la, nem por isso deixam de plantar boas roças, ou de exercer sua pequena indústria, de que tiram a subsistência. Quando chega o tempo de qualquer dos serviços de roça, que consistem nestas quatro operações principais — roçar, plantar, capinar e colher — o pequeno roceiro convida seus parentes, amigos e conhecidos da vizinhança para vir ajudá-lo, e todos pelo direito costumeiro são obrigados a vir dar-lhe u'a mão — é a frase usada -, ficando o que assim se aproveita dos serviços dos vizinhos na obrigação de acudir também ao chamado destes para o mesmo fim.

Já se vê que a calhandra de La Fontaine erraria seus cálculos, e perderia inevitavelmente os seus filhotes, se tivesse de haver-se com os bons lavradores desta nossa abençoada terra.

O mutirão constitui pois como uma espécie de sociedade de auxílios mútuos, baseada unicamente nos costumes e usanças dessa boa gente, que não dispondo muitas vezes senão do seu único braço para o serviço, planta todavia roças consideráveis, e obtém a colheita necessária para a sua subsistência.

Este uso não é somente dos roceiros, e é também posto em prática pelas mulheres que vivem de fiar e tecer, das quais antigamente havia grande número na província de Minas, alimentando com o seu trabalho esse ramo de indústria outrora mui importante e florescente.

Mas o mutirão não consiste simplesmente no desempenho de uma tarefa de trabalho. O dono ou a dona da casa tem por obrigação regalar os seus trabalhadores do melhor modo possível, e a reunião e a boa mesa trazem sempre como conseqüência natural os divertimentos e folguedos. Assim trabalha-se de dia, e à noite toca a comer e beber, a dançar, cantar e folgar.

Umbelina convidou para a festa as comadres e amigas mais chegadas da vila e das vizinhanças a virem passar alguns dias em sua casa, a fim de ajudaremna a desmanchar algumas arrobas de lã e algodão, que queria pôr no tear, e para as regalar punha em atividade toda a sua perícia de quitandeira.

À noite, como de costume, havia toques, cantigas e folguedos, e então apareciam também lá alguns rapazes da vila e dos arredores.

Enquanto o prazer e a festança reinavam ruidosos em casa das vizinhas, o pobre Eugênio, aferrolhado na casa paterna, mordia-se de impaciência, e devorava lágrimas de despeito e desesperação. Triste dele!... naqueles dias nem lhe era permitido ir à costumada entrevista noturna; a casa estava abarrotada de gente, por todos os cantos dela havia ouvidos afiados e olhos vigilantes, e para cúmulo de males, como a casa de Umbelina era extremamente acanhada e fazia então excessivo calor, os serões do folguedo, que duravam até alta noite, se faziam no terreiro, embaixo da grande figueira. Pobre Eugênio, até essas horas caladas da noite e esse solitário e propício abrigo, que lhe proporcionavam os únicos momentos de prazer e ventura que lhe era dado gozar, lhe eram disputados pelo destino!

De noite pregado na cama, onde se revolvia inquieto como se estivesse em um leito de brasas, ouvia os ecos das tocatas e descantos ressoando ao longe pelos vales silenciosos, e quase rebentava de frenesi, de mágoa e de despeito por não poder lá se achar também. Em vão dava tratos à imaginação para descobrir algum jeito de ir tomar parte no folguedo, porém nenhum meio natural confessável se lhe oferecia ao espírito. Tinha cabal certeza de que por modo algum conseguiria licença de seus pais para lá ir.

Pungido por tantas contrariedades cada vez se irritava mais a impaciência, e mais se assanhava o desejo de se achar no mutirão, ainda que fosse um só momento.

Por certo algum vislumbre de zelos também se mesclava a essa impaciência;. o moço sentia infinito desejo e curiosidade de ver como Margarida se comportaria em uma reunião.

Certo de não poder obter o consentimento de seus pais, Eugênio tomou o partido de enganá-los. Como estava em vésperas de partir para o seminário, mostrou-se com grande desejo de ir passar um dia e uma noite com um primo seu, que morava na vila e a que de fato era sumamente afeiçoado, e para esse fim pediu permissão a seus pais. Estes, vendo o estado de tristeza e abatimento em que ia caindo seu filho, e considerando que aquele passeio poderia ser uma salutar distração para fazê-lo esquecer-se de Margarida, não ousaram negar a permissão pedida; antes a concederam com sumo gosto, e até o autorizaram a ficar na vila os dias que quisesse.

(continua...)

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