Por José de Alencar (1874)
O chefe araguaia partiu. No seio da floresta encontrou Araci que o esperava.
A formosa virgem fora à cabana do casamento buscar a rede nupcial e preparar-se para acompanhar o esposo.
— Ubirajara parte; mas antes de cinco sóis ele estará aqui para te conquistar à tua nação.
— A esposa te acompanha. Teu braço valente já a conquistou; e ela entregou-se a seu senhor. Araci te pertence; deves levá-la.
A virgem tocantim desejava seguir Ubirajara à taba dos araguaias. Falava em sua alma a ternura da esposa e da irmã.
Partindo, ela unia-se para sempre a seu guerreiro e esperava que o amor o moveria a salvar Pojucã.
Ubirajara pensou e disse:
— Se Ubirajara tivesse rompido a liga de Araci, ela era sua esposa; e ninguém a arrebataria de seus braços. Mas a virgem tocantim não pode abandonar a cabana onde nasceu, sem a vontade de seu pai.
Araci suspirou:
— Ubirajara vai deixar a lembrança de Araci nos campos dos tocantins. Jandira o espera na taba dos araguaias e lhe guarda o seu sorriso de mel.
— A luz de teus olhos, Araci, estrela do dia, foi buscar Ubirajara na taba dos seus, onde ressoavam os cantos de seu triunfo, e o trouxe à tua cabana.
"Quando ele partiu encontrou Jandira, e para que a filha de Majé não o acompanhasse, a deu a Pojucã como esposa do túmulo."
— O grana do lago voa longe, longe, para banhar-se nas águas da chuva que alagaram a várzea; mas logo volta ao seu ninho, e não se lembra mais da moita onde dormiu.
— Ubirajara é um guerreiro, ele não aprende com o grana do lago, que foge do perigo, mas com o gavião, grande chefe dos guerreiros do ar, que nunca mais abandona o rochedo onde assentou a sua oca.
— Se Ubirajara amasse a esposa, também não a abandonaria. Os braços de Araci já cingiram o colo de seu guerreiro. O tronco não desprende de si a baunilha que se entrelaçou em seus galhos.
Ubirajara calcou a mão sobre a cabeça de Araci.
— Itaquê respeitou a lei da hospitalidade no corpo de Ubirajara; Ubirajara não deixará a traição na terra hospedeira.
"Araci não deve querer para esposo um guerreiro menos generoso do que seu pai."
A virgem emudeceu. Ela sabia que a honra é a primeira lei do guerreiro. Antes de partir, o chefe consolou a esposa.
— Ubirajara vai pedir ao gavião suas asas para voltar ao seio de Araci. Ele virá à frente de sua nação, conduzido pela luz de teus olhos.
"As outras mulheres são o prêmio de um combate entre os servos de seu amor. Araci terá essa glória; que ela será o prêmio da maior guerra que já viram as florestas."
O chefe araguaia pôs as mãos nos ombros de Araci; duas vezes uniu o seu ao rosto dela, por uma e outra face, para exprimir que nada os podia separar.
Quando o guerreiro desapareceu na floresta, Araci caminhou para a cabana do esposo, que ficara triste e solitária.
A virgem fechou a porta; sentou-se na soleira e cantou sua tristeza.
Dois sóis tinham passado; e viera a noite.
A última estrela se apagava no céu, quando Ubirajara pisou os campos dos araguaias.
Sua mão robusta, vibrando a clava, feriu o trocano. A voz da nação araguaia derramou-se ao longe pelo vale, como o estrondo da montanha que arrebenta.
Com o primeiro raio do sol que subia o píncaro da serra, chegaram à grande taba os chefes das cem tabas araguaias, com todos os seus guerreiros, convocados à coara da nação.
Ubirajara mandou que Pojucã, o prisioneiro, viesse à sua presença.
— Vê o mar de meus guerreiros que enche a terra, como as águas do grande rio quando alaga a várzea. Eles esperam o aceno de Ubirajara para inundarem teus campos.
"A nação tocantim carece neste momento do braço de seus maiores guerreiros; vai levar-lhe o socorro de teu valor, para que se aumente a glória de Ubirajara, seu vencedor.
"Tu és livre, Pojucã; parte e voa, que a guerra dos araguaias te segue os passos."
O semblante do filho de Itaquê ficou sombrio.
— Pojucã é um chefe ilustre; não merece esta desonra. Tu lhe prometeste a morte dos bravos. Ele exige o combate.
O chefe araguaia contou a maranduba da hospitalidade.
— Ubirajara não sabia que Pojucã era filho de Itaquê; pois ele nunca pisaria como hóspede a cabana de um guerreiro, a quem tivesse decepado um filho.
"É preciso que recuperes a liberdade para que não se diga que Ubirajara surpreendeu a hospitalidade do grande chefe dos tocantins."
Pojucã não respondeu. Ele reconhecera que a honra do seu vencedor exigia sua volta à taba dos seus.
— Parte. Nós combateremos à frente das nações. Ubirajara pertence a Itaquê; mas depois dele, terás a glória de ser vencido outra vez por este braço.
— Ubirajara é um grande chefe e maior guerreiro. Se Tupã não consente que Pojucã seja vencedor, ele não quer maior glória do que a de morrer combatendo Ubirajara.
(continua...)
ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.