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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

- Foi um dos primeiros estudantes do nosso ano. Moço de grande talento, porém muito pobre; dizem até que foi o tio, o Dr. Costa, quem o ajudou a formar-se. 

- Que faz ele agora? Perguntou a moça com interesse. 

- Não sei. Creio que está aqui advogando; mas perde o seu tempo; não faz nada.

- Por quê? Não tem talento? 

- Mas de que lhe serve se ninguém o conhece? Servia-lhe mais ficar com metade do talento que tem, e a outra metade de proteção. 

- Como proteção? 

- Ora: negociantes que lhe dêem boas causas e o recomendem a seus amigos. 

A moça, lançando um olhar para o cimo da montanha que se desenhava no horizonte, mudou de repente o tom e o assunto da conversa. 

- A Pedra Bonita ainda fica muito longe? Disse ela nesse dúbio tom que vacila entre uma interrogação e uma afirmativa. 

- Falta um bom pedaço. 

- Ainda não passamos o Carneiro. O melhor é voltarmos; já está o sol tão quente! Hoje saímos muito tarde. 

- Como quiser! 

- Vamos voltar? perguntou a moça virando-se para consultar as amigas. 

As opiniões dividiram-se; alguns desejavam a continuação do passeio apesar do tempo perdido com o episódio da flor; outros porém julgavam que era mais prudente voltar, à vista da hora adiantada e do intenso calor.

- Que horas são? perguntou uma senhora. 

- Meia antes do almoço, respondeu Guida sorrindo.

- Neste caso voltemos! Gritou a oposição. 

Guida exagerava no interesse de sua causa. O almoço foi servido quarenta minutos depois, às dez horas em ponto. Cercavam a mesa perto de trinta pessoas. 

Na cabeceira estava D. Paulina, a mulher do comendador Soares, senhora de estatura regular, e bastante nutrida. Tinha na fisionomia um ar de bondade e singeleza que lhe conciliava a simpatia geral. Seus gestos eram acanhados; via-se que não estava a cômodo, nem se ocupava em desempenhar o seu papel de dona-de-casa. Esta senhora, que nascera para uma vida modesta, sentia-se acabrunhada ela riqueza e opressa por esse luxo de ostentação que a envolvia e se apoderara até de sua pessoa. Seu vestido feito no rigor da moda era uma túnica de Nessus para aquele gênio pachorrento. 

Na extremidade oposta, ou na outra cabeceira, estava o comendador Soares, homem de cinqüenta e cinco anos, de mediana estatura e talhe franzino, mas vivo e ágil, respirando saúde e alegria no rosto prazenteiro e no gesto animado. 

Trazia a barba raspada e o cabelo cortado à escovinha. 

- Dr. Nogueira, não quer um pouco deste lombinho? Diz aqui o Bastos que não está mau.

- Está magnífico. 

A pessoa a que se dirigira o Soares, era um homem de trinta e seis anos e parece distinto.

- Obrigado, comendador! Nada mais. 

- Pois eu vou a ele. Quem me acompanha? Aposto que o Guimarães?  

- Está dito! 

- O Sr. Guimarães deve ter bom apetite. Fez um grande passeio a cavalo. 

- É verdade! 

- Onde foram? perguntou Soares. 

- Íamos à Pedra Bonita; mas não chegamos até lá. D. Guida quis voltar... 

- Já era tão tarde! 

- E perdemos muito tempo com a tal flor. 

- Ai, que lá se vai o segredo. 

- Que segredo? 

- Ora; eu lhe conto, papai, disse a Guida. Queria apanhar uma flor, mas “Edgard”, que é um poltrão, teve medo de descer... 

- Sim; mas que ladeira! quase direita! 

- Ora. O outro cavalo não desceu? 

- Com que risco! 

- No fim de contas “Edgard”, zangado, ia-se atirando da montanha abaixo, quando um moço que passava, conhecido do Sr. Guimarães, agarrou-o pelo freio, e desceu para apanhar a flor! 

- Se não fosse ele, quem sabe o que sucederia. 

(continua...)

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