Por José de Alencar (1875)
Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grilo, que saltara de seu lado. Uma avantesma, que lhe surgisse alí, diante dos olhos, envôlta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não lhe incutiria tão profundo terror.
Um tanto corrido do seu pânico, o Aleixo, vendo o grilo sumir-se entre a folhagem, disse ao sertanejo:
— Acabe de uma vez!
— No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e daí veio a mofina que o aflige. Lembrese, porém, que você a procurou por suas mãos.
— Conte como foi! disse Moirão, com arrebatamento.
— Já não se recorda? perguntou Arnaldo estudando-lhe a fisionomia.
— Quero ouvir!
— É melhor esquecer.
— Não: diga o que sabe. Também viu?
— Tudo.
— Pois então repita, disse Moirão com a pertinácia de um mulo.
Os caracteres vingativos, quando sofrem alguma ofensa, em vez de afastarem o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrário revolvem-se nela e saturam-se de fel, como para exacerbar a própria ira e prelibar o prazer da vingança.
Era êste o sentimento que dominava Moirão naquela circunstância, animado ainda pelo desejo de verificar as particularidades de um fato que flutuava confusamente em seu espírito.
Arnaldo suspeitou do que movia o minhoto à insistência.
— Vou fazer-lhe a vontade, Aleixo. Foi uma tarde ao escurecer. A família tinha chegado ao rancho; você incumbiu-se de levar o escabêlo de apear à D. Flor, e quando ela descia o último degrau, ofereceu-lhe a prenda do capitão Fragoso, dizendo-lhe que a mandava um cavalheiro, seu namorado. É isto?
— Até aí vai direito.
— D. Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mór, disse-lhe vivamente: «Mau pai, êste homem faltou-me ao respeito». Então?… O resto não carece.
— Diga, Arnaldo! bufou o colosso.
— Então o capitão-mór aproximou-se e, segurando-o pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos, até que o pôs em pé.
— E m’a teria arrancado com certeza, se não me erguesse na ponta dos pés. Um insulto como êste, Arnaldo, só a morte o apaga. Eu queria tê-lo aquí diante de mim, neste momento, para mostrar-lhe o que é um homem. Dizem que é um brutamonte; pois venha para cá.
Deixou Arnaldo que amainasse a cólera do Moirão.
— Sou seu amigo, Aleixo; já lho disse, e avalio quanto custa a um homem de brio não desafrontar sua honra. Mas eu não consinto que ninguém neste mundo ofenda ao capitão-mór e sua família; portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza de que me há de encontrar pela frente.
— Com você não brigo; isto é decidido. De brincadeira como hoje, sim; mas a valer, não.
— Então desiste?
— De que?
— Da vingança.
— Isso nunca!
— Neste caso você sabe o que se faz duma árvore que ameaça cair-nos em cima?
— Corta-se.
— É o que eu farei, senão houver outro meio de arredá-lo. O mesmo direito tem você, Aleixo; e como a sorte é vária, se for eu que venha a morrer, desde já lhe perdôo. Afiançou-lhe que, a-pesar-de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste.
O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu em sua manopla:
— A estas mãos, Arnaldo, não pode morrer nunca. Minha honra, você não a pode atacar, que é um amigo, e para poupar minha vida não atacarei nunca a daquele que a salvou uma vez.
— Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais queridos que tenho neste mundo; porque o capitão-mór serviu-me de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança, me acalentou ao peito como seu filho.
Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação.Afinal, reconhecendose incapaz de resolver a terrível colisão, deu segundo murro na testa e arrancou pelo mato fora.
Era êste um meio físico de atenuar a dificuldade de sua posição, subtraindo-se por enquanto ao dilema fatal em que se achava colocado entre a honra e a amizade.
O sertanejo, quando o viu desaparecer através da ramada, tomou a mesma direção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e a esmo. Certo de não poder perder o rumo e de acompanhá-lo como à sua sombra por entre a espessura do mato, êle demorava-se a examinar a copa das árvores, os rastos dos animais, as moitas de ervas e todos os acidentes do caminho.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.