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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

A essa bomba não admira que respondesse o povo anos depois com o tal canhão que embocaram à porta do prelado; e se em vez de uma, os gaiatos carregassem a peça com três balas, não fariam mais nem menos do que praticou o Doutor Almada com as três canônicas admoestações. 

Hoje em dia talvez muita gente ignore o que é excomunhão. Não foi assim naqueles tempos de prisca fé, quando bastava a palavra para fazer arrepios, e com razão, que era bem má graça ficar a gente como pesteado, de quem todos fogem, e a vagar por este mundo como um refugo do inferno, à espera de que o leve o demo, ou se lhe cosa na pele. 

Por isso não deve surpreender que arrefecesse um tanto o entusiasmo do Senado pela defensão do padroado real, em pró do qual aliás não duvidariam os camaristas “pôr suas cabeças”, como disseram na carta de 6 de novembro a Afonso VI. Responderam ao prelado protestando que no acórdão tomado nunca fora seu intento encontrar a jurisdição eclesiástica, senão só acudir à sua obrigação, por ser a Sé igreja do padroado d’El-Rei, para que em tempo nenhum se lhe pudesse dar em culpa, e argüir de pouco zelosos no serviço do dito Senhor; pelo que esperavam que não continuasse com a censura notificada. 

Interpôs o governador seus bons ofícios, e afagada a soberba do prelado com o tom submisso do Senado, condescendeu este em suspender a excomunhão intimada, até resolução de El-Rei, a quem se dirigiram as duas partes, pela frota de novembro, a primeira que partiu depois desta ocorrência. 

Reza a crônica que no intuito de justificar a sua determinação de mudar a Sé, afirmava o Doutor Almada que a Igreja de São Sebastião estava em mato, sendo preciso que o vigário lhe abrisse caminho para o trânsito dos fieis nas festas e procissões. Não faltava à verdade o reverendo; apenas omitia uma circunstância bem insignificante: que o mato era de malvas, bredos e grama. 

Assim terminou o conflito entre a mitra e o Senado; ou antes, sopitou-se para rebentar pouco depois, e com maior violência, como veremos. 


XV 

 

UTILIDADE QUE UM NAMORADO PODE TIRAR DOS RIVAIS 

E DOS PINTOS 

 

À Rua da Quitanda, nome que lhe viera da banca de marisco, já então mudada para a Praia do Peixe, foi morar o reverendo Doutor Almada, numa casa próxima ao canto da Rua do Ouvidor, e fronteira ao quintal do tabelião. 

Construída ao gesto do tempo, de regulares dimensões, o que se via mais notável na tal casa era uma grande pitombeira que havia na cerca, onde servia de regalo à vista pela beleza de sua copa frondosa, e de refrigério à calma pela fresca sombra que derramava no horto. 

Era costume naquele tempo, mais do que hoje, de acompanharem-se as dignidades da igreja de não pequeno número de fâmulos, de ordinário mancebos que na qualidade de minoristas cursavam as aulas e se preparavam para tomar as ordens maiores. Formavam essas famílias eclesiásticas pequenos seminários, que se não eram de profanidades, como dizia um célebre pregador, não estavam isentos delas. 

Entre os fâmulos do nosso prelado, e primeiro dos minoristas, contava-se um sobrinho. Cláudio de nome, endiabrado rapaz, que fazia-as todas e dava sota e bastos ao mais arteiro dos garotos da cidade. 

As horas de folga e os dias de sueto, passava-os aquela rapazia trepada na pitombeira, comendo fruta e desinquietando as vizinhas, a quem atiravam as cascas e perseguiam de galhofas. De todas, porém, as mais expostas às chácaras dos minoristas eram a Miquelina, mulher do tabelião, e sua filha Marta, por ficarem defronte. 

Das grimpas da árvore, ocultos pela folhagem, devassavam os rapazes não só todo o quintal, como a varanda de jantar, e os quartos do outão. Não punham mãe e filha o pé na cerca, nem passavam por perto das janelas, que não fossem alvo dos remoques e chacotas dos brejeiros. 

Advertido o Sebastião do desaforo, uma vez saiu à varanda com a sua mais grave compostura tabelioa; e em voz de audiência, fanhosa e estridente, intimou aos rapazes que se comedissem. A resposta foi uma tremenda surriada e um granizo de caroços de pitomba, que bombardeou a respeitável penca do Sebastião Ferreira. 

Vendo em grave risco, não somente a integridade de sua pessoa, como a dignidade de seu caráter publico, o tabelião bateu em retirada, e abrigou-se por detrás de uma pilastra da varanda. 

Com os escreventes acudira o Ivo, que aproveitara a ocasião de avistar-se mais de perto com Marta, e atirar-lhe um segredinho ao passar por alguma porta entreaberta. A vista do desacato que sofrera o Sebastião, correu o rapaz a ele: 

(continua...)

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